Quem é Cego?

[ João 9.8-39 ] Os vizinhos (não necessariamente os que moravam junto à sua casa, mas os da mesma terra ou lugar) do cego que acabava de voltar do tanque de Siloé, agora podendo ver, e os que o observavam, sendo uma figura familiar que tinha o seu lugar costumeiro onde sentar e mendigar, quase não podiam acreditar na sua cura e desejavam saber se era a mesma pessoa. Alguns reconheceram que sim, mas outros só admitiam que se tratava de alguém muito parecido com ele. Ele os ouviu e protestou que era, realmente, a mesma pessoa.

Se assim fosse, exigiram, de que maneira fora curado? Uma pergunta natural e lógica e ele respondeu com os fatos. Ele apenas sabia o nome do homem que o curou – Jesus – mas ainda não sabia que era o Messias o Filho de Deus (veja também o versículo 36). Eles queriam saber onde Ele estava mas o homem não sabia – ele O tinha ouvido, mas nunca ainda visto.

Seus vizinhos então o levaram aos fariseus, os mestres profissionais que pensavam saber tudo. Devem ter sentido que este milagre tinha um grande significado religioso – e sem dúvida já teriam pelo menos ouvido falar deste Homem notório, Jesus.

O sábado semanal era dia de descanso obrigatório. Os fariseus tinham feito uma lista longa do que se permitia fazer e o que era proibido neste dia. Consideraram que fazer barro e curar os olhos de alguém neste dia era trabalho e portanto eram proibidos: aos Fariseus isto era muito mais importante do que o poder sobrenatural somente mediante o qual a cura poderia ter sido feita. No entanto, o Senhor pode ter usado o barro de propósito para enfatizar o ensino d’Ele sobre o sábado: que é certo cuidar das necessidades dos outros mesmo se for preciso trabalhar num dia de descanso.

Como o homem fora trazido aos fariseus, estes agora tinham que dar uma manifestação de sabedoria, e se puseram a questioná-lo. Surpreendentemente não investigaram se, de fato, havia ocorrido um milagre sobrenatural, mas apenas quiseram comprovar que um “trabalho” havia sido feito naquele dia santo. A explicação do homem confirmou sem qualquer dúvida aos fariseus que o Senhor havia transgredido as regras deles sobre o sábado, logo era infrator da lei sagrada (como já antes fora acusado – capítulo 5:10, 16, 18).

Mas não eram unânimes: a alguns isto provou que Ele não era de Deus; mas outros diziam, “Como pode um homem pecador fazer tais sinais?” como Nicodemos (João 3:2), acreditavam que não podiam ser feitos se Deus não estivesse com Ele, e ficaram confusos. Como os “doutores” discordavam em sua “diagnose”, pediram ao “paciente” que descrevesse qual era a sua própria opinião a respeito d’Ele. Mas ele não tinha qualquer dúvida: a pessoa que o curou era um profeta.

Isto não satisfez o primeiro grupo porque os fatos descritos pelo homem, que ele tinha sido cego e tinha recebido a sua visão, estava em conflito com a sua visão teológica sobre Deus e o sábado, logo não podia ser verdade. Claro que, se pudessem provar que o homem não fora realmente curado por Jesus, seriam superadas as objeções do segundo grupo.

Assim, apesar do que o homem e os seus vizinhos declararam, para encobrir a sua própria estupidez eles chamaram os seus pais para resolver esse problema sério e lhes pediram que confirmassem que era realmente o filho deles esse que diziam que tinha sido cego, e se assim fosse, como podiam explicar que podia ver agora? Os pais simplesmente confirmaram que este era mesmo o filho deles que nascera cego, desta forma deixando esses fariseus sem qualquer base para a sua descrença sobre a cura. Como não testemunharam a cura, os pais nada podiam dizer sobre como foi feita, mas seu filho já tinha bastante idade para dar o seu próprio testemunho dos fatos.

O Senhor Jesus tinha declarado que seus discípulos dariam a prova do seu discipulado mediante a confissão do Nome d’Ele diante dos homens, sendo a negação uma refutação (Mateus 10:32; Lucas 12:8). Sabemos que muitos dos líderes acreditavam secretamente na Sua verdadeira identidade (capítulo 12:42) mas “não O confessaram por causa dos fariseus”, pela mesma razão dada aqui para os pais, “porque temiam os judeus, porquanto já tinham estes combinado que se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga” (havia três tipos de excomunhão: por trinta dias, por sessenta ou indefinidamente). Não é de admirar que os pais se restringissem um pouco.

Assim os fariseus interrogaram o homem novamente, na esperança de achar alguma fraqueza na história do homem de que pudessem se aproveitar.

A frase “dá glória a Deus” não significa gratidão a Deus (como em Lucas 17:18) mas é uma insistência para falar a verdade (Josué 7:19; 1 Samuel 6:5), como se ele não o tivesse feito antes. Já não podendo negar o fato da cura depois do testemunho dos pais (João 9:19) eles agora tentaram conseguir que o homem negasse que fora Jesus que o havia curado. Ele deveria aceitar a autoridade eclesiástica deles quando declaravam que aquele Jesus era um pecador portanto Ele não podia tê-lo curado. Agiram como todos os perseguidores dos verdadeiros crentes fariam através dos tempos.

O homem que tinha sido cego já ouvira as mesmas perguntas vez após vez, e recusou cair na armadilha. Ele se desviou do subterfúgio deles sobre Jesus ser um pecador e se agarrou ao fato que tinha experimentado, que sendo cego, agora via, e não sabia como ou por que.

Pateticamente, os fariseus começaram outro interrogatório, finalmente admitindo que Jesus abrira os seus olhos e demandando que outra vez informasse “como.” A paciência do homem estava claramente se acabando e ele perguntou: “Acaso também vós quereis tornar-vos discípulos dele?” Esperava-se uma resposta negativa, mas a ironia foi cortante. Claramente ele sabia que Jesus tinha “discípulos” e que os fariseus também sabiam disso.

Os fariseus o injuriaram (assim pensavam) chamando-o de discípulo de Jesus (ele O tinha chamado de profeta em frente deles, mas depois disto O adorou quando se revelou a ele como sendo o Filho de Deus – logo eles tinham razão, inconscientemente) e declarando orgulhosamente que eram discípulos de Moisés a quem conheciam, acrescentando desdenhosamente que não sabiam donde “este” era (nem queriam saber, ao que parece!).

O homem com um certo sarcasmo respondeu que era muito surpreendente que não soubessem donde era, pois lhe havia aberto os olhos, que Deus não ouve os pecadores (Jó 27:9, Salmo 66:18, Isaías 1:15, 59:2, etc.), portanto Ele era temente a Deus e fazia a Sua vontade, que a cura da cegueira congênita nele operada fora inédita desde o princípio do mundo, e que se Ele não fosse de Deus, nada poderia fazer.

Até esse dia esse homem era cego, mas fez uso excelente e lógico da Bíblia diante daqueles doutores. Que exemplo para nós! Ele não só tinha ensinado os rabinos, mas os derrotou totalmente em sua discussão. Humilhados, eles recorreram ao seu último recurso de quem não tem mais argumento a opor: o insulto, dizendo que ele havia nascido todo em pecados (veja versículo 2) e implicando que tinha sido atrevido quando dirigia-se a eles, e expulsando-o da sua presença (provavelmente não foi uma expulsão formal da sinagoga, pois esta requeria uma reunião formal do sinédrio).

O Senhor Jesus soube do acontecido, procurou o que era cego e se revelou a ele como o “Filho do homem” (o Messias, conforme a profecia de Daniel – 7:13-14). O homem creu imediatamente e O adorou, admitindo assim a Sua divindade.

A palavra “juízo” aqui é usada no sentido de “peneirar”. Por este milagre, o Senhor estava permitindo ao espiritualmente cego (como também fisicamente) ver. Este homem agora passou a ver física e espiritualmente.

Os fariseus tinham olhos e visão físicos, e pensavam que tinham visão espiritual, mas na realidade eram guias cegos (Mateus 23:13-36) complacentes com sua escuridão: “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios. 2:14).

Mas quem admite a sua própria cegueira espiritual e humildemente vem ao Senhor para obter visão, vai recebê-la.

 

Richard David Jones — Bible Facts

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