Você Crê?

Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu seu filho Unigênito para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).

Leitor, observe esse versículo tão conhecido e que encabeça essa página. Suas palavras são provavelmente familiares aos seus ouvidos. Você provavelmente as escutou, leu ou as citou centenas de vezes, mas você já se deu conta da vasta quantidade de teologia contida nele? Não foi à toa que Lutero o apelidou de “a Bíblia em miniatura”! Você percebeu a séria pergunta que se levanta desse texto? O Senhor Jesus diz “todo aquele que nele crê, não pereça”. Contudo, leitor, você crê?

Perguntas sobre religião são pouco populares. Elas amedrontam as pessoas, obrigam-nas a olhar mais adiante e a pensar. O negociante falido não gosta que vasculhem seus livros contábeis. O administrador infiel não gosta que suas contas sejam analisadas. E o cristão descrente não gosta que façam perguntas sobre sua alma.

Não obstante, perguntas sobre religião são muito úteis. O Senhor Jesus Cristo fez muitas perguntas durante seu ministério na terra. Os servos de Cristo não devem se envergonhar de fazer a mesma coisa. Questionamentos sobre assuntos necessários à salvação, que sondam a consciência e trazem o homem face a face com Deus frequentemente trazem vida e saúde à alma. Conheço poucas perguntas mais importantes do que essa diante de vocês hoje. VOCÊ CRÊ?

Leitor, a pergunta que fiz não é de fácil resposta. Não pense em jogá-la fora com a resposta casual “claro que acredito”. Afirmo-lhe hoje que uma crença verdadeira não é uma simples questão de “certeza”, como você supõe. Incontáveis protestantes e católicos romanos dizem semanalmente aos domingos “Creio”, e não sabem nada sobre acreditar. Não conseguem explicar o que querem dizer. Eles não sabem no quê e nem em quê acreditam. Não podem sequer prestar contas de sua fé. Leitor, uma crença assim é completamente inútil. Ela não pode satisfazer, nem santificar e muito menos salvar.

Convido-o para que reflitam sobre a pergunta que inicia esse tratado. Peço-lhe para que me dê sua total atenção enquanto tento posicioná-la, a fim de que veja claramente a importância de acreditar. Pondere bem as palavras de Cristo, as quais me referi, porque é pelo desdobrar dessas palavras que espero fazê-lo sentir o peso dessa pergunta, “Você crê?”.

Existem quatro tópicos que gostaria de apresentar e gravar na sua mente.

I. A mente de Deus concernente ao mundo: Ele o amou.

II. O presente de Deus para o mundo: “deu seu filho Unigênito”.

III. O único meio de conseguir o benefício do presente de Deus: “Todo aquele que nele crê, não pereça”.

IV. As marcas pelas quais cristãos verdadeiros são reconhecidos.

Leitor, o convido a seguir-me em cada um desses quatro pontos que acabo de citar. Não se aborreça ou se impaciente com este tratado, leia-o até o final. Ao escrevê-lo, o que desejo é apenas isso, sua salvação.

I. Consideremos, primeiramente, a mente de Deus para com o mundo: Ele o amava.

A grandiosidade do amor do Pai para com o mundo é um assunto que levanta algumas diferenças de opinião. É um assunto em que já tenho posição e não hesito, de forma alguma, em falar sobre ela. Acredito que a Bíblia nos ensina que o amor de Deus se estende a toda a humanidade. “(…) e suas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Salmo 145:9). Ele não apenas amou os judeus, mas os gentios também. Ele não ama apenas os eleitos, Ele ama o mundo todo.

Mas que tipo de amor é esse com o qual o Pai zela toda a humanidade? Não pode ser um amor de complacência, caso contrário Ele não seria um Deus perfeito. Ele não tolera o que é maligno. Não! O amor pregado mundo afora por Jesus é o amor benigno, piedoso e compassivo. Mesmo o homem decaindo e seus modos sendo provocativos, o coração de Deus é cheio de bondade para com ele. Mesmo que Ele, por ser um Juiz íntegro, odeie o pecado, ainda assim encontra uma forma de amar todos os pecadores! O comprimento e a largura de Sua compaixão não podem ser medidas por nossas fracas medições. Não devemos compará-lO como se fosse um de nós. Mesmo Deus sendo reto, santo e puro, Ele consegue amar toda a humanidade.

Pense, leitor, por um momento, na maravilhosa imensidão que é o amor de Deus. Olhe para a situação dos homens pela terra e veja a enorme quantidade de maldade e descrença com as quais ela se corrompeu. Observe os milhões de pagãos adorando troncos e pedras e vivendo numa escuridão espiritual “que se apalpa”. Observe os milhões de católicos romanos enterrando a verdade debaixo de tradições humanas e dando à igreja, aos santos e ao padre as honras que deveriam ser dadas a Cristo. Observe os milhões de protestantes que se contentam com um cristianismo pró-forma e não conhecem nada sobre a fé e a vida cristã, apenas de nome. Olhe para a terra na qual vivemos hoje e veja que os pecados abundam até mesmo numa nação privilegiada como a nossa. Pense em como atitudes como a bebedeira, a quebra do Dia de Descanso, impureza, mentira, maldições, orgulho, cobiça e infidelidade clamam a Deus de um lado a outro da Grã-Bretanha. E, então, lembre-se que Deus ama esse mundo! Não é por acaso que encontramos na Bíblia que o Senhor é “misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade” (Ex 34:6). Sua compaixão não falha. Ele não quer “que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se”. Ele quer “que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade”. Ele não tem “prazer na morte do ímpio” (2 Pe 3:9; I Tm 2:4; Ez 33:11). Não existe um homem ou uma mulher sequer nesse mundo que Deus olhe com ódio ou indiferença. Sua misericórdia é como qualquer outro atributo Seu. Ela transmite conhecimento. Deus ama o mundo.

Leitor, existem doutrinas diversas e estranhas surgindo no presente sobre o amor de Deus. Esse amor é uma verdade preciosa que Satã tenta arduamente confundir através de distorções e deturpações. Portanto, agarre-se a essa verdade firmemente e fique de alerta.

Tome cuidado com a ideia comum de que Deus Pai é um ser raivoso, por isso pecadores devem olhá-lo com temor e buscar a Cristo por segurança. Coloque esse pensamento de lado por não ter base alguma e estar em desacordo com a Bíblia. Lute severamente por todos os atributos de Deus, tanto pela Sua santidade e justiça quando pelo Seu amor. Em momento algum acredite que haja qualquer falta de amor para com os pecadores por parte de alguém da Trindade. Não! Da forma que o Pai é, assim também é o Filho e o Espírito Santo. O Pai ama, o Filho ama e o Espírito Santo ama. Quando Cristo veio à terra, a bondade e o amor de Deus para com o homem apareceram (Tito 3:4). A cruz é o resultado – e não a causa – do amor do Pai. Redenção é o produto da compaixão de todos os três integrantes da Trindade. É uma teologia muito bruta e fraca querer posicionar o Pai e o Filho um contra o outro. Cristo não morreu porque Deus Pai o odiava, mas porque Ele amava o mundo.

Outra vez, tomem cuidado também com a doutrina de que o amor de Deus está limitado e confinado a Seus eleitos e de que o resto da humanidade é ignorada, negligenciada e posta de lado. Essa também é uma ideia que não passa pelo escrutínio à luz da Bíblia. O pai de um filho pródigo pode amá-lo e ter misericórdia dele, mesmo quando andava segundo sua própria cobiça e recusava-se a voltar pra casa. O Criador de todas as coisas pode, com toda certeza, amar o trabalho de Suas próprias mãos com amor compassivo, mesmo quando se rebelam contra Ele. Resistamos até a morte a doutrina anti-bíblica da salvação universal. Não é verdade que toda a humanidade, no final, será salva. Entretanto, não devemos ir ao extremo, negando a compaixão universal de Deus. É verdade que Deus “ama o mundo”. Devemos manter os privilégios dos eleitos, porque de fato são amados de forma especial e por toda a eternidade. Não excluamos, entretanto, nenhum ser humano da bondade e da compaixão de Deus. Não temos direito algum de diminuir o significado das palavras proferidas por Jesus, quando Ele diz “Deus amou o mundo”. O coração de Deus é muito maior do que o de qualquer homem. É compreendido que o Pai ama toda a humanidade [1].

Leitor, se você nunca estudou o serviço de Cristo com muita seriedade e não tem desejo algum em começar, conforte-se ao menos com a verdade que lhe é exposta. Conforte-se no pensamento de que Deus Pai é o Deus do amor infinito e da compaixão sem fim. Não fique parado e hesitando na suposição de que Deus é um ser raivoso, sem vontade de receber pecadores e perdoá-los. Lembre-se de que o amor é o atributo mais gracioso do Pai. Em Deus há perfeita justiça, pureza, sabedoria e conhecimento, além de um poder infinito, entretanto, acima de tudo, nunca esqueça de que há no Pai também amor e compaixão perfeitos. Aproxime-se dele com ousadia, porque Jesus tem um caminho para você e está escrito que “Ele amou o mundo”.

Leitor, se você já adotou o serviço de Deus, não se envergonhe em imitar aquele a quem você serve. Seja amoroso com todos os homens, principalmente com os cristãos. Não deixe que nada fique restrito, limitado, contraído, mesquinho e nem sectário no seu amor. Não ame apenas sua família ou amigos, ame toda a humanidade, seus vizinhos e seus compatriotas, estranhos e estrangeiros, pagãos e muçulmanos, ame o pior dos homens com um amor piedoso. Ame o mundo. Deixe de lado toda inveja e malícia, egoísmo e indelicadeza. Conservar um espírito nesse estilo, não significa ser melhor que um infiel. Deixe que todas as suas ações sejam feitas com caridade. Ame seus inimigos, abençoe os que lhe amaldiçoam, faça o bem aos que lhe odeiam e não se canse de praticar o bem até o fim de sua vida. O mundo pode zombar de sua conduta e chamá-la de inferior, mas essa é a mente de Cristo, é esse o caminho para sermos como Deus. Deus amou o mundo.

II. O próximo assunto que gostaria de comentar é o presente de Deus para o mundo. “(Ele) deu seu filho Unigênito”.

A forma com que a verdade é posta diante de nós por nosso Senhor Jesus Cristo nos exige uma atenção especial. Para aqueles que se expressam de modo protuberante sobre “o amor de Deus”, seria ótimo se percebessem a forma com que o Senhor Jesus dispõe essa frase diante de nós.

O amor de Deus para com o mundo não é uma ideia vaga e abstrata de misericórdia, no qual somos obrigados a confiar sem prova alguma de sua veracidade. É um amor manifesto através de um presente poderoso. É um amor que nos foi dado de forma tangível, inconfundível e clara. Deus Pai não se contentava em ficar no céu, condoendo-se à toa e amando suas criaturas decadentes lá na terra. Ele deu a maior evidência de seu amor para conosco através de um presente cujo valor é indescritível. Ele, “que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou a todos nós” (Rm 8:32). Ele nos amou tanto que nos deu Cristo! Deus não poderia ter dado maior prova de amor do que essa.

Novamente, não está escrito que Deus tanto amou o mundo que decidiu salvá-lo, e sim que Ele tanto o amou, que deu-lhe Cristo. O seu amor não é exposto às custas de sua santidade e justiça. Ele vem do céu à terra por meio de um canal particular. É colocado diante do homem de forma especial e através de Cristo, por Cristo, às custas de Cristo e em conexão inseparável com as obras de Cristo. Gloriemo-nos no amor de Deus de todas as maneiras. Proclamemos a todo o mundo que Deus é amor, mas lembremo-nos que sabemos muito pouco – ou nada – do amor de Deus, que pode nos dar conforto, exceto em Jesus Cristo. Não está escrito que Deus amou tanto o mundo, que o levará ao céus, mas que Ele o amou tanto, que deu seu filho Unigênito. Aquele que se aventura no amor de Deus sem referir-se a Cristo, constrói u alicerce na areia.

Quem ousa estimar o valor do presente dado por Deus, quando Ele deu ao mundo o seu único Filho? Isso é algo simplesmente incompreensível, inexplicável, ultrapassa qualquer entendimento. Existem duas coisas que o homem não consegue calcular, mesmo com a aritmética, muito menos medir, mesmo com régua. Uma delas é o tamanho do prejuízo para o homem, quando ele perde sua própria alma; a outra é a extensão do amor de Deus quando deu Cristo aos pecadores. Mesmo com todos os tesouros da terra e todas as estrelas do céu a sua disposição, Deus não nos deu algo que já existia para nossa redenção. Ele não nos enviou um ser já existente para ser nosso redentor, mesmo que anjos, principados e potestades, em lugares celestes, estivessem prontos para fazer a vontade do Pai. Não! Ele nos deu nada a mais, nada a menos do que seu próprio companheiro, seu Filho único. Aquele que faz pouco caso das necessidades e do pecado humano deveria considerar mais o Salvador do homem. O pecado deve realmente sobrepujar qualquer maldade, para que o Pai chegue ao ponto de enviar seu único Filho para salvar os pecadores!

Leitor, você já pensou no motivo para que o Pai desse seu Filho primogênito? Foi para que pudesse ser recebido com gratidão pelo mundo perdido e falido? Foi para reinar como majestade numa terra restaurada e colocar todo inimigo sob seu poder? Foi para entrar no mundo como um rei e criar leis e pessoas obedientes? Não! O Pai deu seu filho para ser desprezado e rejeitado pelos homens, nascer de uma mulher pobre e viver uma vida de miséria; ser odiado, perseguido, difamado e blasfemado; ser considerado um malfeitor, condenado como transgressor e morto da forma com a qual matavam criminosos. Nunca houve um amor assim! Nunca houve tamanha condescendência! Aquele entre nós que não consegue humilhar-se ou sofrer a fim de fazer boas obras, não conhece nada sobre o desejo de Cristo.

Por que e por qual objetivo o Pai deu o seu único filho? Foi apenas para dar um exemplo de auto-negação e abnegação? Não! Houve um propósito muito maior do que esse. Ele O deu para ser sacrificado pelo pecado humano e pela redenção da transgressão do homem. Ele o deu para que livrasse nossas ofensas e morresse pelos descrentes. Ele o deu para que nossas iniquidades fossem enterradas e para sofrer por nossos pecados, o justo pelo injusto. Ele o deu para que fosse amaldiçoado em nosso lugar e para que pudéssemos nos redimir da maldição da lei. Ele o deu para morrer por nossos pecados – Ele, que não conhecia o pecado – a fim de que nos tornássemos retos para Deus. Ele O deu para servir de sacrifício expiatório por nossos pecados, e não apenas pelos nossos, mas pelos pecados de todo o mundo. Ele O deu para que resgatasse a todos e para satisfazer o grande débito que tínhamos para com Deus, através de Seu sangue precioso. Ele O deu para que fosse o amigo todo-poderoso dos pecadores, a segurança e o substituto, para fazer por eles o que nunca poderiam ter feito por conta própria, para sofrer o que não conseguiriam suportar e pagar pelo que eles nunca poderiam ter pago. Tudo o que Jesus fez e sofreu na terra, estava em conformidade com o parecer e a previsão de Deus. O motivo principal pelo qual Ele viveu e morreu foi a provisão da redenção eterna para a humanidade.

Leitor, cuide para nunca perder de vista o grande propósito pelo qual Cristo foi dado por Deus Pai. Não permita que o falso ensinamento das modernas doutrinas, apesar de soarem plausíveis, nos tentem a abandonar os caminhos antigos. Segure firme a fé dada aos santos, de que o motivo principal pelo qual Cristo foi entregue foi morrer pelos pecadores e reconciliá-los, através do Seu sacrifício na cruz. Uma vez que essa doutrina é deixada de lado, haverá poucos motivos para se discutir no cristianismo. Se Cristo não carregou nossos pecados na cruz, como nosso substituto, então não há uma paz sólida.

Tome cuidado, novamente, ao defender visões restritas e limitadas do tamanho da redenção de Cristo. Veja-O como tendo sido entregue por Deus Pai para ser o Salvador de todo o mundo. Veja nele a fonte para todo o pecado e impureza, pela qual todo pecador pode se achegar corajosamente e dela beber e por ela viver. Veja nele a serpente de bronze levantada no meio do campo, pela qual toda alma pecadora pode olhá-la e ser curada. Veja nele uma medicina de valor incomparável, capaz de saciar todas as necessidades do mundo e oferecida de graça para toda a humanidade. A porta para o céu já é suficientemente estreita, devido ao orgulho humano, a dureza, a indolência, a indiferença e a descrença. Mas seja cauteloso, para que não transforme esse caminho em algo mais estreito do que ele já é.

Confesso que apoio, de certa forma, a doutrina da redenção particular mais ardentemente do que qualquer outra. Acredito que ninguém seja eficazmente redimido, a não ser os eleitos de Deus. Eles, e apenas eles, são libertos da culpa, do poder e das consequências do pecado. Entretanto, apoio com a mesma força que o trabalho de redenção de Cristo é suficiente para toda a humanidade. Ele provou a morte de cada homem e carregou nele o pecado de todo o mundo. Não ouso diminuir, nem penalizar, o que me parece ser claro na Escritura. Não ouso fechar a porta que Deus, aos meus olhos, deixou aberta. Não ouso dizer a alguém na terra que Cristo não fez nada por ele e que, por isso, não tem permissão para pedir a Cristo que seja salvo. Devo estar em conformidade com os versículos bíblicos. Cristo é o presente de Deus para o mundo.

Leitor, peço-lhe que observe a religião que o verdadeiro cristianismo é: dádiva, amor e graça são as grandes características do evangelho puro. O Pai ama o mundo e, por isso, dá o seu Único filho. O Filho nos ama e, por isso, dá a si mesmo por amor a nós. O Pai e o Filho, juntos, dão o Espírito Santo a todos aqueles que o pedem. Todos os três da Santíssima Trindade dão graça abundante a todos aqueles que crêem. Nunca se envergonhe em ser um cristão dedicado, se você professa ter esperança em Cristo. Conforme seu poder e oportunidade, dê livremente, deliberadamente e desprendidamente. Não deixe que seu amor consista de expressões vagas de bondade e compaixão. Prove seu amor pelas suas ações. Ajude a passar adiante a causa de Cristo na terra, seja através de auxílio financeiro, influências, trabalho ou oração. Se Deus, por amor a você, deu o seu Único filho para morrer pela sua alma, então você deveria considerar um privilégio – e não um fardo – ajudar outras pessoas da forma que puder.

Leitor, se Deus nos deu o seu Único filho, tenha cuidado para não duvidar em momento algum de Sua bondade e amor quando vier alguma providência dolorosa, ainda que divina, em sua vida. Nunca se deixe pensar coisas ingratas de Deus. Nunca suponha que Ele lhe enviará algo que não seja para o seu próprio bem. Lembre-se das palavras de Paulo: “Aquele que não poupou seu próprio filho, mas por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8:32). Em todo sofrimento e problema durante sua vida terrena, veja a mão de Deus, que deu Cristo para morrer por nossos pecados. Essa mão nunca nos bate, a não ser por amor. Aquele que deu o Seu único filho nunca reterá para si algo que seja realmente bom para você. Descanse nisso e contente-se! Diga a si mesmo, no momento mais difícil de julgamento: “Isso também foi ordenado por Ele, que me deu Cristo para morrer pelos meus pecados. Não está errado. É tudo por amor. É para o meu bem”.

III. O terceiro assunto que gostaria de comentar é o modo com o qual o homem obtém o benefício do amor de Deus e da salvação de Cristo. Está escrito que quem crer, não perecerá.

Leitor, essa questão é de grande importância. Trazê-la a vocês e esclarecê-la é um dos grandes objetivos desse tratado. Deus amou o mundo. Deus enviou seu único filho “para Salvador do mundo” (I Jo 4:14). Ainda assim, vemos nas escrituras que muitas pessoas não alcançam o paraíso! Aqui, de qualquer forma, é uma limitação. Aqui tanto o portão quanto o caminho para chegar-se a ele são estreitos. Alguns, e apenas alguns, conseguem o benefício eterno de Cristo. Quem, então – e o quê – eles são?

Cristo, assim como seus benefícios, está disponível apenas para aqueles que crêem. Essa doutrina é repetidamente professada nas escrituras, numa linguagem clara e inequívoca. Aqueles que não acreditam Nele, também não fazem parte Dele. Não há salvação sem fé. É vão pensar que todos se salvarão, simplesmente porque Cristo tomou corpo ou porque está no céu; porque eles pertencem à igreja de Cristo ou porque foram batizados ou, até mesmo, porque tomaram a ceia do Senhor. Tudo isso é inútil a qualquer homem, a não ser que ele creia. Sem que ele tenha fé, nada disso salvará sua alma. Devemos ter fé em Cristo e um relacionamento pessoal com Ele, do contrário, estamos perdidos para sempre. É completamente falso e anti-bíblico dizer que Cristo está em todas as pessoas. Cristo, sem dúvida alguma, é para todos, mas Cristo não está em todos. Ele habita apenas nos corações que tem fé e, infelizmente, nem todos a tem. Aquele que não acredita no Filho de Deus, está em pecado e a Sua fúria reside nele. “Mas quem não crer”, diz nosso Senhor Jesus Cristo de forma amedrontadora, “Mas quem não crer será condenado” (Mc 16:16, Jo 3:36).

Cristo e suas benesses são para aqueles humanos que creem. Todo os que acreditam no Filho de Deus são perdoados, absolvidos, justificados, considerados retos e inocentes e libertos da condenação eterna. Seus pecados, apesar de muitos, são de vez apagados pelo sangue precioso de Cristo. Sua alma, apesar de culpada, está revestida da perfeita retidão de Cristo. Não importa mais o que ele foi no passado. Seus pecados talvez foram do pior tipo. Seu caráter pode ter sido o mais obscuro. Mas ele crê no Filho de Deus? Essa é a questão. Se sim, então e é justificado de todas as coisas, pela visão de Deus. Não importa se ele não pode trazer a Cristo algo que o recomende: boa obra, aperfeiçoamento comprovado, arrependimento evidente ou mudança de vida. Ele, hoje, acredita em Jesus Cristo? Essa é a questão. Se sim, ele é de vez aceito e é considerado correto, por causa de Cristo!

Mas o que é esse “acreditar”, cuja importância é incomparável? Qual a natureza dessa fé, que dá ao homem privilégios tão maravilhosos? Essa pergunta é muito interessante e peço sua atenção para a resposta. Essa é um iceberg pelo qual muitos naufragam, entretanto, não há nada verdadeiramente misterioso e difícil para entender sobre a crença na salvação. Toda essa dificuldade surge devido ao orgulho e ao farisaísmo humano. É a mesma simplicidade da fé justificada, na qual muitos tropeçam. Contudo, tais homens não conseguem entender isso, porque não estão dispostos a ceder.

Acreditar em Cristo não é um mero consentimento intelectual ou crença da própria cabeça. Essa nada mais é do que a fé dos demônios. Podemos até acreditar que existiu uma pessoa divina, chamada Jesus Cristo, que viveu, morreu e ressurgiu novamente há 1800 anos e, ainda assim, não acreditar a ponto de sermos salvos. Sem dúvida alguma, deve haver um estudo antes de crermos. Não há religião na ignorância. Assim como ter apenas conhecimento, não salva.

Novamente, acreditar em Cristo não é apenas sentir algo sobre Ele. Isso nada mais é do que empolgação temporária, a qual, como o orvalho novo, logo perece. Podemos estar com nossas consciências atormentadas e, por isso, sentir uma atração pelo evangelho, assim como Herodes e Felix. Podemos até tremer e chorar, mostrar afeição pela verdade e por aqueles que a professam. E, ainda assim, nossos corações e vontades permanecerão sem mudança alguma e secretamente acorrentados ao mundo. Sem dúvida alguma, não há salvação se não há sentimento. Mas o sentimento, sozinho, não é fé.

A fé verdadeira em Cristo é a confiança sem limites de um coração convencido do pecado e que tem a Cristo como seu todo suficiente salvador; é a combinação da cabeça, da consciência, do coração e da vontade humana. Essa confiança é geralmente tão fraca que aquele que a tem, não é convencido disso. Ainda assim, como a vida na criança recém-nascida, sua crença pode ser real, genuína, redentora e verdadeira. Esse momento em que a consciência se convence do pecado, a cabeça olha para Cristo como o único que pode salvá-la e o coração e a vontade seguram a mão que Cristo conserva, é o momento em que há uma fé salvífica. Nesse momento, o homem crê.

Acreditar verdadeiramente em Cristo é tão importante, que o Espírito Santo usou várias figuras na Bíblia para mostrar sua relevância. O Senhor sabe da lentidão humana para entender assuntos espirituais, por isso, Ele multiplicou as formas de expressão, de modo a por a fé claramente diante de nós. O homem que não entende o que significa “crer” de forma simples, talvez compreenda de outra maneira.

1. Crer é a alma ir a Cristo. O Senhor Jesus diz, “aquele que vem a mim, não terá fome”, “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Jo 6:35, Mt 11:28). Cristo é aquele amigo, advogado e médico todo poderoso, para quem todos os pecadores, precisando de ajuda, são ordenados a se dirigir. O que crê vai a Ele pela fé e é aliviado.

2. Crer é a alma receber Cristo. São Paulo disse “Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo” (Cl 2:6). Cristo se oferece para entrar no coração do homem com perdão, misericórdia e graça e habitar nele como seu Pacificador e Rei. Ele diz, “Eis que estou à porta e bato” (Ap 3:20). O cristão escuta a voz de Cristo, abre a porta e admite-o como Seu mestre, sacerdote e rei.

3. Crer é a alma edificada em Cristo. São Paulo afirma que nós estamos “arraigados e edificados nele”, “Edificados sobre os fundamentos dos apóstolos e dos profetas” (Cl 2:7, Ef 2:20). Cristo é o alicerce, a pedra fundamental que, sozinho, pode carregar o peso de uma alma pecadora. O cristão deposita a sua esperança na eternidade nele e é salvo. A terra pode tremer e dissolver, mas ele está construído na rocha e, portanto, nunca será destruído.

4. Crer é a alma revestida de Cristo. São Paulo disse “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, já vos revestistes de Cristo” (Gl 3:27). Cristo é aquele manto branco e puro, provido por Deus a todos os pecadores que entrariam no céu. O cristão coloca esse manto pela fé e, de uma só vez, torna-se perfeito e livre de qualquer mácula à vista de do Pai.

5. Crer é a alma retida em Cristo. São Paulo disse, “tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta” (Hb 6:18). Cristo é esse refúgio, para onde o homem, fugindo do vingador do sangue, corre e está salvo. Cristo é o altar que providencia um santuário para o homem que segura suas pontas. Cristo é aquela mão misericordiosa, proporcionada do céu por Deus, para os pecadores perdidos. O cristão segura essa mão pela fé e é resgatado do abismo do inferno.

6. Crer é a alma se alimentando de Cristo. O Senhor Jesus diz, “Porque a minha carne verdadeiramente é comida. (…) Quem comer este pão, viverá para sempre” (Jo 6: 55, 58). Cristo é o alimento divino providenciado por Deus para os pecadores famintos. Ele é o pão divino que, ao mesmo tempo, é vida, nutrição e remédio. O cristão se alimenta desse pão da vida pela fé. Sua fome é aliviada. Sua alma é resgatada da morte.

7. Crer é a alma bebendo Cristo. O Senhor Jesus disse, “o meu sangue verdadeiramente é bebida” (Jo 6:55). Cristo é a fonte da água viva, aberta por Deus para todos os pecadores que tinham sede, proclamando “e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22:17). O cristão bebe dessa água viva e sua sede é saciada.

8. Crer é o cometimento da alma a Cristo. São Paulo disse, “Porque eu sei em quem tenho crido e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” (2 Tm 1:12). Cristo é o proprietário e o guardião das almas. É seu trabalho preservar do pecado, da morte, do inferno e do diabo, tudo o que está sob Seu comando. O cristão coloca sua alma nas mãos do guardião do tesouro, o Todo Poderoso, e tem garantia contra perda por toda a eternidade. Ele, o cristão, confia a si próprio a Ele, e está salvo.

9. Por último, porém não menos importante, Crer é a alma olhar para Cristo. São Paulo descreve os santos como “Olhando para Jesus” (Hb 12:2). O convite ao evangelho é “Olhai para mim, e sereis salvos” (Is 45:22). Cristo é a serpente de bronze que Deus colocou no mundo, a fim de sarar todas as almas pecadores, que desejam ser curadas. O cristão olha para Ele com fé e obtém vida, saúde e força espiritual.

Uma observação em comum pode ser feita a todas as nove expressões que acabo de falar. Todas elas nos dão a ideia mais simples de fé e crença que alguém pode desejar. Nenhuma delas implica na noção de algo misterioso, notável ou meritório no ato de crer. Todas elas representam a crença como algo ao alcance do pecador mais fraco e insignificante, onde compreensão pode ser feita pelo homem mais ignorante e iletrado. Suponha, por um momento, que um homem diga que ele não consegue entender o que é a fé em Cristo. Deixe que ele leia as nove expressões com as quais a fé é descrita na Escritura e diga-me, se ainda for possível, que ele não as entenda. Certamente ele deve achar que vir a Cristo, olhá-lo, confiar sua alma a Ele, agarrar-se nEle, são ideias simplórias. Então, deixe-o lembrar que vir, olhar e confiar sua alma a Cristo são, em outras palavras, acreditar.

Agora, leitor, se você ama a paz de consciência na religião, peço-lhe para que agarre com força a grande doutrina que coloquei diante de você, e nunca a deixe escapar. Descanse na grande verdade de que a fé salvífica é apenas a confiança em Cristo de que a ela, sozinha, justifica, e que o necessário para chegar-se a Ele é crer. Sem dúvida alguma, arrependimento, santidade e caridade são excelentes e sempre acompanharão a verdadeira fé. Entretanto, eles não tem nada a ver com a justificação. Nessa questão, a única coisa necessária é crer. Claro que a crença não é a única graça encontrada no coração de um verdadeiro cristão, mas apenas a crença dá ao homem o interesse em Cristo. Estime essa doutrina como o tesouro característico do cristianismo. Uma vez que você a deixa ir ou adiciona-lhe algo, haverá um fim na paz da alma.

Estime a doutrina pela sua conveniência às vontades do homem pecador. Ela coloca a salvação ao alcance do pecador mais baixo e vil, basta que ele tenha coração e vontade para recebê-la. Ela não pede a ele por obras, retidão, mérito, bondade nem excelência. Ela não exige nada dele. Ela impede qualquer desculpa e destitui-o de qualquer pretexto de desesperação. Seus pecados podem ter sido como escarlate, mas ele é salvo? Então há esperança.

Estime a doutrina pela sua simplicidade gloriosa. Ela traz a vida eterna para perto do pobre, do ignorante e do iletrado. Ela não pede ao homem uma confissão longa de ortodoxia doutrinária. Ela não exige uma abundância de conhecimentos, nem uma familiaridade com artigos e credos. Será que o homem, mesmo com toda sua ignorância, vem a Cristo como pecador e compromete-se inteiramente com Ele pela salvação? Ele acreditará? Se sim, então há esperança.

Acima de tudo, estime a doutrina pela sua importância gloriosa e pela plenitude de seus termos. Ela não diz que apenas o eleito, o rico, o homem bom, o membro da Igreja Estatal ou o Dissidente que crê será salvo. Não, ela usa uma palavra cujo significado é muito mais amplo: “todo aquele que nele crê, não pereça”. Todo aquele! Não importa seu passado, sua conduta ou caráter, não importa o seu nome, sua classe social, sua parentela ou nacionalidade, não importa sua denominação ou o lugar que frequenta para adorar, todo aquele que crê em Cristo, não morrerá.

Leitor, esse é o evangelho. Não me admira São Paulo ter escrito tais palavras: “mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gl 1:8).

IV. O quarto e último tópico que gostaria de tratar é de grande importância prática. Gostaria de mostrar-lhes as marcas pelas quais verdadeiros cristãos podem ser distinguidos e conhecidos.

A fé e a crença, tratados por mim anteriormente, são uma graça de suma importância e serão, naturalmente, falsificadas, portanto, precisamos estar preparados para isso. Assim como existe uma fé morta, também existe a fé viva; a fé dos perversos, assim como a fé dos eleitos por Deus; a fé que é vã e inútil e a fé que justifica e salva. Como o homem saberá se ele tem a fé verdadeira ou não? Como ele saberá se acredita na salvação de sua alma? Há como descobrir. Um etíope é reconhecido pela sua pele, assim como um leopardo por suas manchas. A fé verdadeira pode ser reconhecida por algumas marcas. Elas estão expostas claramente nas escrituras. Leitor, vou me esforçar para deixar essas marcas de forma clara diante de você. Observe-as cuidadosamente e teste sua própria alma com o que vou dizer.

1. Aquele que acredita em Cristo tem, dentro de si, paz e esperança. Está escrito “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo”, “Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso” (Rm 5:1, Hb 4:3). Os pecados do cristão são perdoados e suas iniquidades são levadas embora, sua consciência já não está mais carregada com o peso de suas transgressões não perdoadas. Ele está reconciliado com Deus e tornou-se um de seus amigos, podendo olhar para a morte, o julgamento e a eternidade sem temor. A tormenta da morte é afastada e quando o julgamento do dia final for realizado e os livros forem abertos, não haverá nada posto a seu cargo. Ele estará preparado para quando a eternidade chegar, porque sua esperança está no céu e na cidade sólida. Ele pode não ser completamente sensível a todos esses privilégios, seu senso e visão sobre estas coisas podem variar enormemente dependendo do momento e podem ser frequentemente obscurecidos por dúvidas e medos. Como uma criança que ainda é muito nova, mas herda uma grande fortuna, ele pode também não estar ciente do valor de suas posses, mas com todas as suas dúvidas e temores, ele tem uma esperança verdadeira, sólida e real que o fará suportar as provas e poderá dizer “Tenho uma esperança que faz com que não me sinta envergonhado” (Rm 5:5).

2. Aquele que acredita em Cristo tem um novo coração. Está escrito, “Assim, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo”, “mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos quais crêem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”, “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus” (2 Co 5:17; Jo 1:12-13; I Jo 5:1). Um cristão não tem mais a mesma natureza de antes. Ele está mudado, renovado e transformado à imagem de seu Senhor e Salvador. Aquele que se preocupa primeiro com os assuntos da carne, não tem fé. A verdadeira fé e regeneração espiritual são companheiras inseparáveis. Uma pessoa não convertida não é cristã!

3. Aquele que acredita em Cristo é uma pessoa cujo coração e vida são santos. Está escrito que Deus purifica “os seus corações pela fé” e que cristãos são “santificados pela fé”, “E qualquer que nele tem esta esperança, purifica-se a si mesmo” (At 15:9 e 26:18; I Jo 3:3). Um cristão ama aquilo que Deus ama e odeia o que Deus odeia. O desejo do seu coração é caminhar segundo as ordenanças de Deus e se abster de qualquer costume maldoso. Seu desejo é andar segundo o que é justo, puro, honesto, amável e de bom testemunho e purificar-se de toda impureza da carne e do espírito. Por diversas vezes ele está muito aquém de seus propósitos e vê sua vida diária como um duelo constante contra a corrupção que habita nele. Ele luta e se recusa a servir o pecado. Onde não há santidade, podemos ter certeza de que não há fé salvífica. Um homem profano não é cristão!

4. Aquele que acredita em Cristo trabalha na obra de Deus. Está escrito que a “fé opera pelo amor” (Gl 5:6). Uma crença verdadeira nunca fará um homem perder tempo, nem permitirá que ele fique imóvel, satisfeito com sua própria religião. Essa crença o motivará a realizar atos de amor, bondade e caridade quando perceber uma oportunidade. Ele será compelido a andar pelo mesmo caminho que seu Mestre, que “andou fazendo o bem”. De uma forma ou de outra, fará com que ele trabalhe. As obras que ele faz, talvez não atraiam os olhares do mundo. Elas podem parecer insignificante para muitas pessoas, mas não serão esquecidas por Ele, que nota até um copo de água gelada oferecida em Seu nome. Onde não há um trabalho por amor, não há fé. Um cristão preguiçoso e egoísta não pode caracterizar-se como cristão!

5. Aquele que acredita em Cristo vence o mundo. Está escrito que “todo o que é nascido de Deus, vence o mundo, e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (I Jo 5:4). Um verdadeiro cristão não se regra pelos padrões mundanos de certo e errado, verdade ou mentira, não depende da opinião do mundo e não se importa com o reconhecimento do mundo. Ele não é movido pela censura do mundo, nem busca seus prazeres, tampouco ambiciona as recompensas dele. Ele olha para o que não se pode ver. Ele vê um Salvador invisível, um julgamento por vir e uma coroa de glória que não se desvanece. Tudo isso faz com que ele pense pouco do mundo. Onde o mundo reina no coração, não há fé. Um homem conformado com esse mundo, não pode se denominar cristão!

6. Aquele que acredita em Cristo, tem um testemunho interno de sua crença. Está escrito que “quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho” (I Jo 5:10). A marca diante de nós, requer um manejo delicado. A testemunha do Espírito é, inquestionavelmente, um assunto muito difícil, mas não posso temer em declarar minha própria convicção, de que verdadeiros cristãos sempre têm sentimentos dentro de si que são peculiares a eles, sentimentos que estão conectados com sua fé e que fluem dela, sentimentos que descrentes desconhecem. Ele tem o Espírito da adoção, pelo qual ele olha para Deus como o Pai reconciliador e o observa sem temor. Ele tem o testemunho de sua consciência, borrifada pelo sangue de Cristo, de que, tão fraco quanto possa ser, ele descansa em Cristo. Ele agora tem esperança, alegria, medo, dor, consolação e expectativa, coisas que não conhecia antes de crer. Ele recolheu evidências que o mundo não consegue entender, mas que são bem melhores para ele, mais do que qualquer livro de evidências existente. Os sentimentos são, sem dúvida alguma, muito enganosos. Mas onde não há sentimentos religiosos, não há fé. Um homem que não sabe nada sobre religião interna, espiritual e experimental, não é, ainda, um cristão!

7. Por último, aquele que acredita em Cristo, tem um olhar especial em sua “religião” à pessoa de Cristo. Está escrito, “E assim para vós, os que credes, é preciosa” (I Pe 2:7). Esse texto merece uma atenção especial. Ele não diz que o cristianismo é precioso, ou que o evangelho é precioso, ou que a salvação é preciosa, mas que Cristo é precioso. A religião de um cristão não consiste em mero consentimento intelectual a algumas afirmações e doutrinas, não é uma crença fria de um conjunto de verdades e fatos concernentes a Cristo. Ela consiste em união, comunhão e camaradagem com uma Pessoa que vive: Jesus, o Filho de Deus. É uma vida de fé, confiança e descanso em Jesus; uma vida de sugar o máximo dEle, falar com Ele, trabalhar para Ele, amá-lO e ansiar pela Sua segunda vinda. Essa vida parece entusiasmar a muitos, mas onde há fé verdadeira, Cristo será sempre conhecido e visto como um amigo vivo e pessoal. Aquele que não vê a Cristo como seu pastor, médico e redentor, não tem conhecimento algum sobre crer!

Leitor, agora coloquei diante de você, as sete marcas de quem crê e peço para que considerem-nas. Não estou dizendo que todos os cristãos as têm igualmente, e também não estou dizendo que aquele que não tiver todas essas marcas, não será salvo. Sei que muitos cristãos são tão fracos na fé, que passam todos os dias de sua vida duvidando até deles mesmo. Digo apenas que existem marcas para as quais o homem deveria direcionar-se primeiro, caso queira responder à questão: você crê?

Se as sete marcas estiverem ausentes, não posso afirmar que tal homem seja um verdadeiro cristão. Ele pode se chamar cristão e participar das ordenações cristãs, ser batizado pelo batismo cristão e ser um membro da igreja cristã, mas se ele não sabe nada sobre a paz com Deus, a conversão do coração, a inovação da vida e a vitória sobre o mundo, não ouso considerá-lo cristão. Ele ainda está morto nos seus delitos e pecados. A não ser que ele acorde para uma nova vida, ele perecerá eternamente.

Mostre-me um homem que tem nele essas setes marcas que descrevi, e terei grande confiança no estado de sua alma. Ele pode ser pobre e necessitado nesse mundo, mas é rico aos olhos de Deus. Ele pode ser desprezado e escarnecido pelos homens, mas ele é honrável aos olhos do Rei dos reis. Ele está caminhando em direção ao céu e há uma mansão preparada para ele na casa do Pai. Ele é cuidado por Cristo, enquanto está na terra e será propriedade de Cristo antes do ajuntamento dos mundo, na vida que está por vir.

1. Agora, leitor, chegando à conclusão desse tratado, volto à pergunta com a qual o comecei. Pressiono-a na sua consciência e pergunto-lhe, em nome do meu Mestre, se você, agora, entende do assunto que foi tratado. Peço-lhe, enquanto essas páginas ainda estão diante de seus olhos, para que observe minha indagação. Pergunto-lhe, você crê?

VOCÊ CRÊ? É impossível superestimar a grande importância dessa pergunta. Vida ou morte, céu ou inferno, bênção ou maldição, todos se desdobram e se viram para ela. Aquele que crê em Cristo, não será condenado. Aquele que crê, não será amaldiçoado. Se você crê, você é perdoado, justificado, aceito por Cristo e tem a vida eterna. Se você não crê, então está morrendo diariamente. Seus pecados estão na sua cabeça, levando-o para a perdição. A cada hora que passa, mais perto você está do inferno.

VOCÊ CRÊ? Não importa o que os outros fazem. A pergunta é para você. A insensatez dos outros não é desculpa para que você também aja de modo insensato. Perder o céu não será menos amargo por você perdê-lo em companhia. Olhe para seu lar. Pense na sua alma.

VOCÊ CRÊ? Não é resposta dizer que algumas vezes você torce para que Cristo tenha morrido por você. As escrituras não nos dizem para gastarmos nosso tempo com dúvidas e hesitações nesse assunto. Nunca lemos sobre um único caso sequer de alguém que ficou imóvel diante disso. A salvação não foi dada para que fosse questionado se Cristo morreu ou não pelo homem. O ponto da virada foi posto diante de nós.

VOCÊ CRÊ? Este é o ponto em que todos devem pensar, se são salvos. Quando estivermos na cova, não significará muita coisa o que professávamos e a qual denominação pertencíamos. Tudo isso não valerá nada comparado à questão desse tratado. Tudo será inútil, se não tivermos crido.

VOCÊ CRÊ? Essa é a marca comum de todas as almas salvas. Episcopais ou Presbiterianos, Batistas ou Independentes, Metodistas ou Irmãos de Plymouth, clérigos ou dissidentes, se são homens verdadeiros, todos se encontraram nesse ponto. Em outras questões, eles discordam frequentemente, mas no viver pela fé em Jesus Cristo, nisso eles estão de acordo.

VOCÊ CRÊ? Qual razão você pode dar para a descrença, que suportará as provas? A vida é curta e incerta, a morte é certa, o julgamento é inevitável, o pecado é completamente corrompido, o inferno é uma terrível realidade e somente Cristo – e mais nenhum outro nome debaixo do céu – pode salvá-lo. Se você não se salvar, a culpa será totalmente sua. Você não crerá, não virá a Cristo, mas só Ele pode te dar a vida!

Leitor, atente-se para isso. Você deve ou acreditar em Cristo ou perecer por toda a eternidade. Não descanse enquanto você não puder dar uma resposta satisfatória a essa pergunta. Nunca se satisfaça até que você possa dizer: “pela graça de Deus, eu creio”.

2. Saio das perguntas e passo para as recomendações. Ofereço-as a todos os que estão convencidos do pecado e não estão satisfeitos com sua condição espiritual. Peço para que venha a Cristo pela fé, sem demora. Convido-lhe a acreditar em Cristo para a salvação de sua alma.

Não vou permitir que você me desanime com a objeção comum “não podemos acreditar, precisamos esperar que Deus nos dê a fé”. Admito que a fé salvífica, assim como o verdadeiro arrependimento, é um presente de Deus. Admito não termos poderes naturais para acreditar, receber e ir a Cristo, segurarmos Nele e entregar nossa alma a Ele. Mas vejo fé e arrependimento mostrados claramente nas Escrituras como deveres que Deus exige de todo homem. Ele “anuncia agora a todos os homens, e em todo lugar, que se arrependam”, “e o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu filho Jesus Cristo” (At 17:30; I Jo 3:23). Vejo com a mesma clareza, que descrença e impenitência são pecados pelos quais o homem prestará conta, assim como também vejo que aquele que não se arrepende e não crê, destrói a própria alma (Mc 16:16; Lc 13:3).

Alguém dirá que é correto um homem ficar imóvel perante o pecado? Alguém dirá que um pecador, indo para o inferno, deve esperar algum poder para colocá-lo no caminho do céu? Alguém dirá que é correto um homem continuar servindo o diabo silenciosamente, numa rebelião clara contra Deus, sem fazer esforço algum, sem lutar, sem tentar voltar-se a Cristo?

Deixe que outros digam isso, se quiserem. Eu me recuso. Não encontro nenhuma justificação para eles nas Escrituras. Não perderei meu tempo explicando o que não pode ser explicado e nem desembaraçando o que não pode ser desembaraçado. Não tentarei mostrar metafisicamente de qual forma um descrente pode olhar para Cristo, ou se arrepender, ou acreditar. Mas isso eu sei: que é o meu dever propor a todo descrente que se arrependa e creia. Disso eu sei, que o homem que não aceitar o convite verá, no final, que arruinou sua alma!

Leitor, acredite em Cristo, olhe para Ele e clame ao Senhor Jesus Cristo – se você ainda não creu – pela sua alma. Se você ainda não tem os sentimentos corretos, peça a Cristo que lhe dê. Se você acha que ainda não tem a fé salvífica, peça a Cristo que lhe dê, mas em nenhum caso fique parado. Não perca sua alma para o inferno por causa de sua preguiça ignorante e não bíblica, não viva numa inatividade irracional, esperando por algo que você não sabe, aguardando por algo que você não consegue explicar, aumentando sua culpa todo dia, ofendendo a Deus ao continuar nessa descrença preguiçosa e construindo uma cova para sua própria alma. Levante-se e clame por Cristo! Acorde e rogue a Jesus pela sua alma! Mesmo com qualquer dificuldade que possa surgir, uma coisa é clara, nenhum homem que estava aos pés da cruz morreu e foi parar no inferno. Se você não pode fazer mais nada, prostre-se aos pés da cruz.

3. Termino com uma palavra de exortação a todos os cristãos que lerem esse tratado. Dirijo-me aos companheiros peregrinos e amigos na tribulação. Eu os exorto para que, se amam a vida e encontraram alguma paz ao crer, orem diariamente por um aumento na fé. Que sua oração seja continuamente: “Senhor, aumenta a minha fé”.

A fé verdadeira aceita muitos degraus. A fé mais fraca é o suficiente para juntar a alma a Cristo e assegurar a salvação. Uma mão trêmula pode receber um remédio que cure. A criança mais fraca pode ser herdeira de grandes riquezas. A menor fé dá ao pecador o título para entrar no céu, tão certo quanto o que tem grande fé, mas pouca fé não pode dar o conforto que uma fé forte proporciona. Conforme for o grau de nossa fé, assim também será o grau de nossa paz, esperança, força para as tarefas e paciência no julgamento. Certamente deveríamos rogar continuamente: “aumenta nossa fé”.

Leitor cristão, você teria mais fé? Você vê tanto prazer no acreditar, que gostaria de crer ainda mais? Então cuide para ser diligente no uso de todos os meios da graça, diligente na sua comunhão particular com Deus, diligente no cuidado diário com o tempo, o temperamento e a língua, diligente na sua leitura bíblica e diligente nas suas orações. É vão esperar por prosperidade espiritual, quando não nos importamos com essas coisas. Quem quiser que nos taxe de meticulosos por sermos minuciosos nessas coisas, minha resposta a isso é essa, que não houve nenhum santo eminente que as tenha negligenciado.

Leitor, você teria mais fé? Então, busque se familiarizar mais com Jesus Cristo, estude mais sobre o seu Salvador e se esforce para conhecer mais a respeito da dimensão do Seu amor. Estude-o em todos os Seus ofícios, como pregador, médico, redentor, advogado, amigo, professor e pastor dos que o seguem. Estude-o como aquele que não apenas morreu, mas que também vive por você, assentado à direita de Deus; como aquele que não apenas verteu Seu sangue, mas que também diariamente intercede por você, à direta de Deus; como aquele que em breve virá novamente por você e voltará mais uma vez a essa terra. O mineiro que está convencido de que a corda que o puxa da mina não quebrará, é tirado sem ansiedade ou alarme. O cristão que está completamente familiarizada com plenitude de Jesus Cristo é o cristão que passa da graça para a glória com o mais sincero conforto e paz.

Leitor, recomendo que dê atenção a estas coisas.

ORE PARA QUE O ESPIRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.

 

John Charles Ryle [ Tratado traduzido de “Evangelical Tracts” do original em inglês “Do You Believe?” | Projeto Ryle ]


[1] Se algum leitor está hesitante por causa de algumas frases sobre o amor de Deus, peço sua atenção ao que está escrito em João 1:29 e João 3. 16. No meu “Expository Thoughts on St. John’s Gospel”, defendo firmemente a doutrina da eleição, como é anunciada no Artigo 17 da Igreja da Inglaterra. Tenho esse artigo como um apoio para minha igreja. Eu me deleito na verdade que Deus amou seus eleitos com um amor eterno, desde a fundação do mundo. Mas tudo isso está muito além da pergunta diante de nós. A pergunta é, “Como Deus vê toda a humanidade?” Respondo sem hesitar que Deus a ama. Deus ama o mundo com um amor compassivo.