Vasos Que Iluminam

Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para ILUMINAÇÃO do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós” (2 Co 4:6-7) — “O deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo” (2 Co 4:4) não deve alvorecer sobre eles, escreve Paulo aos Coríntios. A “iluminação” ele descreve como vinda do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo. E aqueles que iluminam, brilham como “luminares no mundo” (Fp 2:15), no meio de tudo o que é falso, perverso e contrário a Deus. O Senhor pretende que sejamos “vasos iluminados”. Iluminados por contemplar como em um espelho a glória do Senhor e sendo transformados continuamente na mesma imagem pela glória que brilha sobre nós (2 Co 3:18).

Mas, continua Paulo, este tesouro está alojado em um corpo de barro frágil, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós mesmos. Um vaso terreno, embora iluminado! Um corpo de barro frágil, embora habitado pelo Senhor da glória. Na vida prática é importante que o tesouro celestial seja claramente distinto do barro frágil, para que o vaso não esqueça e se imagine alguém celestial. Infelizmente, algumas vezes o vaso de barro realmente se esquece de que o tesouro celestial está em um vaso terreno, até que o Senhor permita que os contratempos cheguem e então haja um despertamento severo e penoso.

A DESCRIÇÃO DO VASO DE BARRO

“Vasos de barro” (2 Co 4:7). “A nossa casa terrestre deste tabernáculo” (2 Co 5:1). “Isto que é corruptível… isto que é mortal” (1 Co 15:54). “O corpo da nossa humilhação” (Fp 3:21). Essas palavras descrevem o vaso terreno como ele sempre será até a aparição do Senhor. É “vaso de barro” e por isso sujeito a ser quebrado, inutilizado e severamente forçado além do seu poder de suportar. Infelizmente, com que frequência os vasos de Deus se esquecem disto e tratam o vaso como se já fosse de ouro celestial.

Ele é a “casa terrestre deste tabernáculo” e por isso sujeito à lei de Deus feita para todas as formas corpóreas até que sejam dissolvidas e a casa celestial seja dada. Infelizmente, quão ignorante muitas vezes somos dessas leis de Deus e as quebramos como não quebraríamos os dez mandamentos dados no Sinai.

É chamado de “o corpo da nossa humilhação”. Somos os filhos de Deus, “os herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo”, embora gemamos, “esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Rm 8:23). “Gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu” (2 Co 5:2), pois é humilhante estar agrilhoado a um corpo de barro, sujeito à limitação das suas leis, enquanto na realidade somos cidadãos celestiais.

O VASO TERRENO E SEUS SOFRIMENTOS

“Fomos sobremaneira agravados mais do que podíamos suportar, de modo tal que até da vida desesperamos” (2 Co 1:8). “Atribulados… perplexos… perseguidos… abatidos” (2 Co 4:8-9). “Fraqueza… temor… grande tremor” (1Co 2:3). Aqui vemos o vaso iluminado, manifestamente mortal e em humilhação. Paulo não tenta esconder que sentiu as bofetadas que recebeu. Não há nenhum traço nas suas cartas de estoicismo artificial. Nos primeiros dias da vida recebida de Cristo, muitos dos filhos de Deus pensavam que honravam o Senhor ao esconder os seus sentimentos sob um exterior reservado e um ´louvor ao Senhor!´, mas quão poucos entendem a verdadeira vida de Jesus. Não percebemos a irrealidade ocasionada pelo esmagamento da nossa humanidade e quanto, ao em vez de glorificar Cristo, realmente O estamos escondendo e repelindo dos outros que veem a dureza produzida pelo nosso comportamento não natural. Não confessaríamos que estamos “atribulados” ou “perplexos” e choramos pelo nosso “temor” e “grande tremor”, pesarosamente dizendo a nós mesmo quão maldosamente temos falhado na percepção da vida que desejamos viver. Mesmo “perplexo, perseguido, abatido”, escreve Paulo sobre ele mesmo aos Coríntios o quanto confia na fidelidade de Deus. Ele está “atribulado” é verdade, mas “não angustiado”, está “perplexo”, mas “não desanimado”, muitas vezes está “abatido” exteriormente, mas não está “destruído”, como morrendo, contudo, veja ele vive, o homem exterior está perecendo, mas o homem interior é renovado dia a dia. A força dos tempos verbais que o apóstolo usa implica que as circunstancias das coisas que ele descreve acontecia constantemente. Não uma grande provação e uma grande vitória, seguida por uma vida de libertação das provações. Não, Paulo escreve: “E assim nós que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor a Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal” (2 Co 4:11), para que a VIDA PELA QUAL JESUS VENCEU A MORTE possa mostrar o seu poder. Quão claramente o padrão é dado nessas palavras. Diariamente ao vaso de barro é dado conhecer a sua fraqueza para que diariamente a vida de Jesus que vence a morte possa mostrar o seu poder. Mais uma vez, quanto ao serviço para Cristo, estar “em fraqueza, e em temor, e em grande tremor” parece ser sempre a condição necessária do vaso para a “demonstração de Espírito e de poder”. Um vaso trêmulo, energizado pelo Espírito Santo, é o retrato diante de nós na vida de Paulo, contudo, muitos de nós estamos dispostos a pensar que não conhecemos nada da vida abundante quando trememos na entrega da mensagem confiada a nós pelo Senhor. Pensamos que viria o dia quando deveríamos ter grande consciência do poder, esquecendo a lição objetiva da vida de Paulo.

A APARÊNCIA EXTERNA DO VASO

“Além disto, eu, Paulo,… quando presente entre vós, sou humilde” (2 Co 10:1). “Porque… dizem,… a presença do corpo é fraca, e a palavra desprezível” (2 Co 10:10). Os vasos de Deus que iluminam não são sempre exteriormente belos. O homem considera muito a aparência exterior, a presença nobre, a fluência do discurso, a força do corpo, mas Deus escolhe fazer a Sua mais poderosa obra com instrumentos que são muitas vezes manifestamente fracos, vis e desprezíveis. Além disso, Ele os permite permanecer desprezível aos olhos dos outros, para que não se gloriem no instrumento e não consigam ver o poder de Deus. Paulo escreve aos Coríntios os advertindo para que ninguém se glorie na natureza humana. Na verdade quanto a ele mesmo achou mais seguro não falar muito livremente de si mesmo como estando “em Cristo”, para que ninguém tivesse uma reverência exagerada por ele e pensasse mais elevadamente sobre ele do que deveriam pensar. Ele achou melhor se gloriar na sua fraqueza e falar pouco das revelações. Ele estava disposto a permanecer aos olhos dos outros um vaso desprezível, e aceitar a verdade de que na aparência exterior era vil no meio deles (2 Co 12:5-6).

É preciso de real autodestruição para calmamente aceitar a verdade sobre nós quando somos vistos aos olhos dos outros e não nos retraímos em sensível autoconsciência de qualquer serviço que o Mestre se agrada, satisfeito de falar apenas palavras fracas se almas forem levadas a Ele, de ser humildes na aparência exterior para que a “beleza do Senhor” possa ser vista ser Dele, para que nenhum a carne possa se gloriar da Sua presença.

A INDIVIDUALIDADE DO VASO

“Estou crucificado com Cristo… Cristo vive em mim” (Gl 2:20). “Conheço um homem em Cristo… de alguém assim me gloriarei eu, mas de mim mesmo não me gloriarei, senão nas minhas fraquezas” (2 Co12: 2-5). Essas palavras, e muitas outras passagens, mostram quão claramente Paulo reconheceu a individualidade pessoal de alguém habitado pelo Senhor ressurreto. As expressões usadas em Gálatas 2:20 parecem uma contradição e, contudo, são verdadeiras. “Fui crucificado em conjunto com Cristo” (grego literal), descreve uma mudança no centro da pessoa pela comunhão com a morte de Cristo que traz a nova força da vida de Cristo a ser manifestada através de “mim” – a personalidade do vaso de terreno. Por essa razão o apóstolo diz: “ainda vivo”. Como se ele dissesse: ´Eu morri na Pessoa do crucificado. Fui cravado na cruz Nele. Ele agora vive em mim como o Seu templo. Em minha personalidade vivo, pois tenho todas as minhas próprias características individuais e gostos. Mas a vida que agora vivo no corpo vivo pela fé Nele, simplesmente realizando aquilo que Ele opera em e através de mim, como o frágil vaso de barro. Do que sou em união com Ele, posso me gloriar, mas de mim mesmo como o vaso terreno, posso apenas me gloriar da fraqueza – fraqueza que é o veículo para a manifestação da Sua força´. Escrevendo aos Coríntios, Paulo fez a mesma clara distinção entre ele como o vaso de barro e o Senhor que era a sua vida. Ele era capaz de discernir quando o Senhor dava o mandamento e quando ele usava o seu próprio julgamento pessoal. “Mando, não eu, mas o Senhor” ele escreve. “Não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer”, são as suas palavras mais tarde, e novamente: “Segundo o meu parecer, e também eu cuido que tenho o Espírito de Deus” (1 Co 7:10, 25, 40). O apóstolo não toma a posição de infalibilidade. Ele sabe quando Deus fala através dele e então não hesita em dizê-lo, mas ele também francamente explica quando está usando o seu próprio julgamento pessoal e apenas se aventura a acrescentar o que pensa que o Espírito Santo está de acordo. A manifestação da vida de Cristo nos vasos de barro é transparente e simples. Muito ´natural´, aberto e livre. Portanto, precisamos reconhecer a humanidade e a individualidade do vaso de barro, lado a lado à habitação abençoada do ressurreto Senhor. Então podemos declarar fielmente: “Assim disse o Senhor” sobre tudo o que está escrito em Sua palavra, não a nossa visão do que a palavra significa, mas a própria Palavra, simplesmente como está escrita, enquanto humildemente dizemos sob toda a luz dada pessoalmente: “Cuido que tenho o Espírito de Deus”.

A NECESSIDADE CONTÍNUA DO VASO

“Antes subjugo [esmurro] o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo [como um vaso] não venha de alguma maneira a ficar reprovado [ou envergonhado]” (1Co9:27). Essas palavras usadas por Paulo sobre ele mesmo mostram a necessidade da constante vigilância no caminhar diário. É sempre possível em qualquer estágio da vida espiritual falhar em manter o vaso de barro em seu lugar de subordinação, sob o controle completo do Espírito. “Subjugo o meu corpo” escreve o apóstolo, referindo-se claramente ao conflito com o seu corpo para “reduzi-lo à servidão” e mantê-lo modera do em todas as coisas para não o impedir de ganhar o prêmio do elevado chamamento de Deus. Há sempre um ´para que eu mesmo não seja desqualificado´ para todos no serviço ao Mestre, sempre um perigo de perder vergonhosamente o prêmio, de não ser aprovado no trono do juízo, onde a obra de cada um será provada pelo fogo, provada para a recompensa. Há até mesmo a possibilidade de que “frustremos a graça de Deus” em nosso chamamento para o Seu serviço fazendo-se necessário a Ele alterar o Seu propósito com relação à nossa utilidade para Ele, e nos deixe de lado por vasos mais flexíveis e fiéis. Podemos dar as costas para o caminho do sacrifício, podemos não conseguir ser moderados no suprimento das demandas legais da estrutura corpórea, ou podemos nos afundar e ceder ao clamor da sua fraqueza em vez de nos lançar sobre a força Divina. Sempre, o vaso de barro deve ser subserviente à vida celestial, evitando o extremo do ascetismo e o uso indevidamente severo da sensível estrutura corpórea. O filho de Deus deve andar cuidadosamente, em vigilância, para que nas coisas legais da vida não haja um mover lentamente para a escolha de um caminho mais fácil à custa do prêmio celestial.

O RISCO DO VASO DE BARRO

“E, para que não me exaltasse… foi-me dado…” (2 Co 12:7). Enfatizamos o fato de que Paulo, cheio do Espírito Santo, usa essas palavras a respeito dele mesmo! Elas mostram que até a abundância da graça pode ser um risco, precisando de proteção especial do vaso de barro pelo próprio Senhor. Paulo nos diz como o Senhor o supriu para o risco. Ele lhe deu “um espinho (estaca) na carne” (verso 7), que o manteve quebrado e humilhado. Paulo o chama de “mensageiro de Satanás”, embora tenha sido dado a ele pelo Próprio Deus. Para Paulo não havia nenhuma segunda causa. Ele via como uma coisa que devia ser tirada, mas quando entendeu do Senhor que o espinho era necessário para lançá-lo continuamente sobre o poder de Cristo, brada ´muitíssimo alegremente: Senhor´, e ao mesmo tempo regozija-se na vontade de Deus. A exaltação espiritual pode ser manifestada no desprezo a outros que não estão em nosso estágio de experiência. Ela pode se apresentar na autoconfiança sob a aparência de “fé”, num espírito de julgamento e crítica com a presunção de conhecimento espiritual superior ao de outros, ou numa afirmação dogmática da verdade. Quão sutil é o laço! Mas Deus é fiel e guardará Seus filhos que confiam Nele. Ele sabe como dar a cada vaso abundantemente usado “um espinho” que o manterá quebrado aos Seus pés. Ele sabe como proteger os Seus vasos escolhidos dos riscos do temperamento natural deles e tornar seguro para eles serem usados por Ele. Ele, que é o Criador, medirá o “espinho” para a necessidade do vaso e lhe ensinará o segredo de como abundar, assim como estar abatido (Fp 4:12). Vamos, por isso, amados de Deus, “apresentar os nossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12:1), enquanto esperamos pela aparição do Senhor desde o céu, “que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso” (Fp 3:21).

 

Jessie Penn-Lewis [ “Revista O Vencedor“, fevereiro de 2013. Do livro “Power For Service” ]