Será Que Deus Controla os Homens Maus?

Os recentes eventos e discussões políticas nos Estados Unidos servem para nos lembrar de que Deus frequentemente estabelece os piores homens e mulheres para dirigir as nações deste mundo (Daniel 4:17). Todavia não é minha intenção aqui entrar na questão política, mas sim discutir alguns princípios das Escrituras que podem nos ajudar a entender como Deus mantém controle das questões dos homens, ao mesmo tempo em que os deixa livres para seguirem seus próprios desejos e inclinações.

Vamos começar com as palavras de uma oração inspirada feita pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos em Atos 4:24-31: “Tu, Soberano Senhor… que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram.” Esta é uma passagem notável, pois não apenas é a acusação que o Espírito faz da mais nefasta conspiração da história, como também nos diz claramente que Deus é capaz de predeterminar, mediante o Seu conselho, uma conspiração ou ato de maldade sem comprometer Seu caráter santo e impecável.

Esta questão atinge o coração da distinção Calvinismo-Arminianismo e do debate sobre o assim chamado “livre arbítrio”. Todavia, não pretendo mergulhar nas profundezas teológicas desse argumento, mas sim apresentar as Escrituras para lidar principalmente com a questão de como Deus, de forma justa, restringe e manipula os homens do mundo para Sua própria glória. Isaías 45 oferece um bom exemplo disso em Ciro.

Os seres humanos pecaram contra seu Criador e contra Suas criaturas como resultado de uma combinação destes três fatores: Inclinação, Oportunidade e Sugestão. Creio que vemos isso claramente no pecado de Eva no Jardim do Éden e não tenho dúvida de que podemos identificar estes fatores em todos os nossos fracassos pessoais.

Mesmo antes de ter pecado Eva tinha as inclinações inerentes à natureza humana, tendo sido atraída ao fruto proibido por aquilo que ela sentiu que este lhe ofereceria (alimento, prazer e sabedoria), mesmo havendo Deus provido, de forma gratuita e em abundância, tudo que eles necessitavam.

Adão e Eva certamente tiveram a oportunidade de fazer aquilo que havia sido proibido por Deus, pois Ele tinha colocado a árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim sem nada mais que uma ordem para que eles evitassem comer dela. Deus não colocou nenhuma cerca em volta da árvore, e o fruto estava evidentemente ao alcance da mão.

Mas foi a sugestão da serpente o que podemos chamar de elemento catalizador, que trouxe à tona o pecado que Deus previu antes do início do tempo. “É certo que não morrereis… como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gênesis 3:4-5). Juntamente com essa sugestão e como algo vital ao seu sucesso veio a declaração adicional de que o julgamento prometido por Deus não passava de uma ameaça vazia.

Pode ser algo difícil de aceitar, mas é uma prerrogativa de Deus comissionar Satanás, ou ao menos dar permissão a ele, para que sugira ao homem um curso de ação que irá resultar em glória para Si mesmo (2 Crônicas 18:12-27; Jó 1 e 2; Mateus 4:1; Lucas 22:3; João 13:27). Uma das passagens mais instrutivas da Palavra de Deus sobre este assunto da manipulação que Jeová faz de espíritos malignos para levar o homem a tomar um determinado caminho é encontrada em 2 Crônicas 18. Ali um certo espírito se oferece para usar a boca de um profeta para levar o Rei Acabe à sua ruína. E no Novo Testamento, quando o próprio Satanás entrou no pobre Judas e o levou a trair o Senhor Jesus, aquilo foi sem dúvida parte do “determinado desígnio e presciência de Deus” (Atos 2:23). Aquilo resultou na crucificação do Senhor para a glória de Seu Pai e para a eterna benção de todos aqueles que Deus escolheu e chamou.

Mas como é que isso funciona na prática no caso de um “rei”, cujo coração nas mãos do Senhor é “como ribeiros de águas… Este, segundo o Seu querer, o inclina”? (Provérbios 21:1). Imagine um rei, ditador ou presidente incrédulo que tenha uma inclinação natural ao orgulho e um desejo de ser reverenciado por sua sabedoria e força. Deus pode dar a ele a oportunidade (por exemplo, removendo seus obstáculos) para que tal governante destrua a vida ou carreira de seu rival, enquanto um espírito maligno poderá sugerir que, fazendo assim, o governante poderia consolidar seu poder sem temer as consequências. Agora suponha que algo assim aconteça dezenas de vezes ao dia, para decisões grandes ou pequenas, e que, em todas as situações, o homem faça escolhas que deem a ele o máximo de prazer. Seu coração o levará ladeira abaixo no caminho da destruição, enquanto Satanás e seus servos estarão sugerindo suas escolhas sem que Deus o impeça de fazê-las. Assim o homem é escravo de suas próprias concupiscências, e é na verdade impotente a menos que Deus, em Sua soberania, intervenha.

Somente cristão, pela fé no Senhor Jesus Cristo, está livre dessa espiral descendente de escravidão à carne. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Apenas o cristão possui a vida de Cristo e o Espírito de Deus dentro de si, e isso levou Paulo a escrever: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gálatas 5:17). Além disso, “o amor de Cristo nos constrange” (2 Coríntios 5:14).

O incrédulo não possui tal recurso influenciando suas inclinações carnais, por isso se uma experiência anterior ou um espírito de mentira sugerir que não haverá consequências às suas escolhas egoístas, não há limite para as profundezas que o coração natural do homem consegue alcançar. “Visto como se não executa logo a sentença sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal” (Eclesiastes 8:11).

Nosso Deus não é, de forma alguma, o autor do mal, mas do mesmo modo como Ele pode fazer com que a ira do homem se transforme em louvor para Si, e então restringir o que restar daquela ira (Salmos 76:10), Ele também pode glorificar a Si mesmo por meio do mal existente na mente de Suas criaturas. Deus pode restringir as ações do mais vil déspota, que mesmo assim escolhe de forma deliberada e contínua seguir seu curso rumo à destruição. Que seria também o meu curso, não fosse pela maravilhosa graça de Deus.

 

John Kulp – Extraído e traduzido de “Greater Riches“.