O Tempo da Cruz

Há muito tempo que venho notando uma desconsideração dos cristãos de uma maneira geral, por aquilo que é fundamental para uma vida cristã normal, a saber, a cruz de Cristo.

Parece que a modernidade trouxe com ela a banalização do que aconteceu há muito tempo, fazendo com que fatos fundamentais da humanidade sejam considerados ultrapassados e, em alguns casos, como se não tivessem nenhum significado tão importante assim. Esse é o caso da cruz que o Senhor Jesus tomou sem merecer, em favor de todos os homens.

A cruz é, na maioria das vezes, apenas um objeto decorativo pendurado na parede das casas, escritórios ou no pescoço das pessoas. E isso mais por motivos supersticiosos do que por crença. Na verdade, esse costume de fabricar cruz e usá-la por superstição é um costume pagão que tem suas origens muito antes da própria crucificação de Cristo. Nos rituais satânicos, a cruz é um símbolo de vitória porque nela o Filho de Deus foi brutalmente assassinado. E isso agrada as trevas e faz afronta a Deus. Todo cristão que tem discernimento da cruz física e visível, jamais a utiliza porque ele sabe que a cruz traz tristes lembranças ao Pai que viu Seu Filho ser pregado nela.

A cruz que nós cristãos precisamos experimentar não é esta que é física e visível, mas é a cruz que é eterna. Aquela que não está limitada ao tempo ou espaço. É aquela que é sempre atual e presente na vida do cristão normal. O apóstolo Paulo foi, por assim dizer, o primeiro cristão a experimentar isso. Ele fala em vária de suas epístolas sobre a experimentação da cruz. Ele diz, por exemplo, em Gálatas: “Estou crucificado com Cristo”. Essa deve ser a verdadeira experiência cristã. Ele diz também na primeira carta aos Coríntios: “Levando sempre por toda parte o morrer de Cristo”. Ele nunca fala da cruz e da crucificação como algo do passado, mas algo do presente, algo atual e sempre novo.

O irmão Watchman Nee, em sua experiência cristã, provou de perto a cruz do Senhor. Ele teve uma revelação profunda e uma experimentação intensa da cruz de Cristo. Foi por isso que sempre falava dela e sempre buscava estimular os irmãos a tê-la presente em sua vida diária. Em quase todas as pregações do irmão Nee, ele fazia menção à cruz de Cristo. Isso porque em sua jornada de pregador do evangelho, pode observar que a maior fraqueza do povo de Deus estava na falta de uma experiência profunda com a cruz de Cristo.

Em minha experiência pessoal, com a permissão dos irmãos, quero testemunhar que a cruz foi um marco importantíssimo. Somente comecei a ter alguma compreensão da obra de Cristo, depois que consegui ver algo da Sua cruz. Não que tenha visto muito ou tudo, mas um pequeno vislumbre da cruz foi o suficiente para causar uma grande transformação em minha vida.

Aconselho a leitura e estudo do conteúdo desse livreto, em espírito e em oração diante do Senhor e de Sua Palavra. O poder que está contido na obra que o Senhor Jesus Cristo fez por nós está escondido na cruz do Calvário. Tudo o que Deus tem para nós hoje e terá eternamente está em Cristo e na operação da Sua cruz em nós.

Que o Espírito Santo nos encaminhe para a plenitude da operação da cruz do Senhor Jesus em nós, hoje e sempre. Amém

 

Prefácio do Editor

 


 

A ETERNIDADE DA CRUZ

Sempre que consideramos a cruz, ela causa admiração em nós! Sempre que nos lembramos da redenção do Senhor Jesus, nosso coração é cheio tanto com tristeza como com alegria. Para nós a cruz do Senhor não é só uma cruz de madeira, mas um símbolo de Sua obra remissória completa e da salvação completa consumada por esta obra remissória.

Quando a princípio recebi o Senhor, freqüentemente perguntava como os homens no Antigo Testamento, que vieram antes do tempo da crucificação do Senhor, poderiam ser salvos. Naquela ocasião era um bebê no Senhor e estava bastante perplexo com esta pergunta.

Em anos recentes, não vi muito do poder renovador da cruz manifestado nos crentes. Parece para eles que a morte do Senhor é algo que aconteceu há muito tempo, mais de dezenove séculos atrás. Como tal, ela parece não ter qualquer força.

Agradeço ao Pai por ter recentemente mostrado a mim a eternidade da cruz. Devido aos dois conceitos acima mencionados, considero necessários que os santos de Deus estejam familiarizados com o ensino da “eternidade” da cruz. Se percebermos que a cruz ainda é extremamente atual, quanto seremos toucados por ela!

A MORTE DO SENHOR EM RELAÇÃO A VELHA E A NOVA ALIANÇA

Podemos ler primeiro Hebreus 9:15-17: “E por isso é mediador de uma nova aliança, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões cometidas debaixo do primeiro pacto, os chamados recebam a promessa da herança eterna. Pois onde há testamento [a mesma palavra que aliança no original], necessário é que intervenha a morte do testador. Porque um testamento [aliança] não tem força senão pela morte, visto que nunca tem valor enquanto o testador vive.”. Esses poucos versos nos mostram a relação entre a morte de Cristo na cruz e a velha e a nova aliança. Sob a velha aliança, os homens pecavam da mesma forma como o fazem agora. Já que havia o pecado, havia a necessidade do Salvador. Se um homem pecou e não recebeu o perdão de Deus, ele terá que carregar seu próprio julgamento do pecado. Deus não pode perdoar o pecado do homem simplesmente por Sua misericórdia. Ao fazer assim poria a Si mesmo em injustiça. Por essa razão, na forma de Deus redimir Ele estabeleceu o caminho da substituição. Sob a velha aliança, Ele usou muitos sacrifícios e ofertas para fazer expiação pelos pecados do homem. Desde então muitos animais morreram como representantes do homem, para que o homem recebesse o justo perdão de Deus. A palavra “expiação” em Hebráico significa “cobertura”. Sob a velha aliança, a expiação era apenas uma cobertura dos pecados do homem com o sangue dos animais, porque a Bíblia diz claramente: “Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes tire pecados” (Hb 10:4). Por essa razão, na plenitude dos tempos Deus enviou Seu Filho ao mundo para morrer pelos homens.

Através de Sua oferta única de Si mesmo, a salvação eterna pela redenção foi consumada. Os pecados que não eram removidos pelo sangue de touros e cabras no Antigo Testamento são agora removidos por Sua morte, pois Ele é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). A morte de Cristo assinalou uma grande mudança na história. Sua morte dividiu a era do Antigo Testamento da era do Novo Testamento. Antes de sua morte, houve a era do Antigo Testamento; depois de Sua morte, a era do Novo Testamento. As leituras da Escritura acima mencionadas cobrem esse ponto.

Estes três versos falam dos dois tipos de relacionamentos que a morte do Senhor tem com a velha e nova aliança. Hebreus 9:15 mostra como Ele é o Mediador. Os versos 16 e 17 mostram como Ele se tornou Aquele que fez o testamento.

Vimos que cada um na primeira aliança era um pecador. Embora oferecessem animais a Deus como expiação pelos seus pecados, seus pecados eram apenas cobertos; esses pecados não eram removidos. Naquela ocasião Deus perdoou os pecados deles porque através do sangue dos muitos sacrifícios viu a distância o sangue de Seu Filho e sua eficácia. Contudo, a menos que o Senhor Jesus fosse morto, Deus ainda não poderia colocar um fim no problema do pecado na primeira aliança. O pecado precisa ser removido. Quando Cristo morreu, o pecado sob a primeira aliança foi removido. Podemos ver a relação entre a morte do Senhor e a primeira aliança por outro ângulo. Toda aliança tem suas condições. A velha aliança também teve suas demandas. Quando o homem veio a faltar com estes requisitos, ele pecou. O castigo do pecado é a morte. É por isso que o Senhor Jesus teve que morrer como representante daqueles da primeira aliança e os redimir de seus pecados. Ele cumpriu todos os requerimentos da primeira aliança, a terminou, e iniciou a nova aliança.

Através de Sua morte Ele redimiu o homem dos pecados cometidos na primeira aliança e se tornou o Mediador da nova aliança. Ser o Mediador da nova aliança está baseado em Sua redenção pelos pecados daqueles da primeira aliança. Originalmente, o homem recebeu a promessa da herança eterna. Contudo, devido ao seu pecado, homem foi impedido de herdá-la. Agora o Senhor Jesus morreu. O homem foi redimido do pecado, e os chamados estão qualificados para receber a herança eterna. Conseqüentemente, o Senhor Jesus se tornou o Mediador através da morte na cruz. Por um lado, Ele colocou um fim nos pecados da velha aliança. Por outro, Ele trouxe a bênção da nova aliança. Todos esses assuntos estão relacionados ao fato Dele ser o Mediador.

Logo devemos considerá-Lo como Aquele que fez o testamento. A palavra “testamento” é “aliança” na linguagem original. Na discussão acima, tivemos a lei do testamento. Todos aqueles que transgrediram a lei morreram. Cristo morreu a fim de nos redimir do pecado. Depois disso então podemos considerar o testamento da aliança. Um testamento significa um acerto feito por um testador para a passagem de suas posses ao seu herdeiro na morte do testador. O Senhor Jesus é o Testador, Aquele que fez o testamento. Todas as bênçãos desta era e das próximas pertencem a Ele. Já que Ele foi quem quis tomar os pecados daqueles da primeira aliança, é também quem quer passar adiante tudo o que está prometido nesta aliança (testamento). Para redimir o homem de seus pecados, Ele teve que morrer. Para que o homem herde o testamento, Ele também teve que morrer. Se um homem está vivo, o testamento que ele faz não terá efeito. Ele deve morrer antes que o herdeiro possa receber a herança. Aqui vemos a relação profunda entre a morte de Cristo e a velha e a nova aliança.

Em resumo, sem a Sua morte não haveria a velha e a nova aliança. Sem a Sua morte, o Antigo Testamento não estaria completo, pois o requisito da sua lei não teria sido cumprido. Sem a Sua morte não haveria o Novo Testamento, porque não haveria forma da bênção do seu testamento ser passada adiante para os chamados. Mas o Senhor morreu. Ele terminou a primeira aliança e decretou a segunda aliança. De fato, o Novo Testamento foi decretado pelo Seu sangue.

COMO OS HOMENS ERAM SALVOS NO ANTIGO TESTAMENTO?

Se o sangue de touros e cabras não era capaz de remover o pecado, como nós mencionamos antes, como então aqueles do Antigo Testamento eram salvos? Pela cruz. O homem pecou. Por isso, somente um homem poderia realizar a redenção do pecado. Embora os animais fossem inocentes, e embora fossem sem mancha, não poderiam redimir o homem dos seus pecados. Porque então Deus promete em Levítico 17 que o sangue das criaturas era capaz de redimir alguém do pecado? Deve haver algum significado muito profundo aqui. As coisas da lei “são uma sombra das coisas que viriam, mas o corpo é de Cristo” (Cl 2:17). Por isso, todos os sacrifícios e as oferendas no Antigo Testamento se referem a Cristo. Embora Cristo ainda não tivesse morrido no tempo da primeira aliança, Deus pretendia que todos os sacrifícios oferecidos naquele tempo fossem um tipo de Cristo. A morte deles era considerada como a morte de Cristo. Através do sangue de muitos animais, Deus via o sangue de Seu Filho amado. Através de muitos touros e cabras, Ele via “o Cordeiro de Deus”. Através dos muitos sacrifícios, Ele via a morte substitutiva de Cristo. Quando Ele aceitava aquelas oferendas, era como se Ele aceitasse o mérito da morte de Seu Filho. Por causa disso, o homem era redimido de seus pecados. Ele considerava os inocentes touros e cabras como Seu Filho querido. Por isso, Ele pôde perdoar os pecadores baseado nos sacrifícios que eles ofereciam. Todas as vezes que as ofertas eram sacrificadas, elas falavam do sacrifício vindouro do Filho de Deus como a oferta pelo pecado no Gólgota e da Sua consumação da obra eterna de salvação. Porque o Senhor é um homem, Ele é capaz de redimir o homem do pecado. Porque Ele é Deus, Ele está capacitado para redimir todos os homens, do passado e do presente, dos seus pecados.

Aqueles que ofereciam os sacrifícios no Antigo Testamento, conscientemente ou inconscientemente, acreditavam num Salvador crucificado que viria. Todos seus sacrifícios eram para voltá-los ao Salvador que viria. Embora o Senhor Jesus ainda não tivesse nascido naquele tempo, a fé não olhava para o que podia ser visto. Antes, olhava para o que não podia ser visto. A fé via um Salvador vicário ao longe e confiava Nele. Quando chegou a hora, o Filho de Deus veio e morreu pelos homens. O que era apenas uma questão de fé então se tornou um fato.

COMO OS HOMENS ERAM SALVOS NO NOVO TESTAMENTO?

Sabemos que estamos no tempo do Novo Testamento. Como somos salvos neste tempo? Cristo morreu e a salvação está consumada. Se crermos no Senhor Jesus, o que significa que pela fé O recebermos como Salvador, seremos salvos. Alguns têm tempos difíceis até entenderem como Cristo pôde morrer por eles antes de terem até nascido. Realmente isso apresenta um problema para os sentimentos físico. Contudo para a fé, essa é uma verdade gloriosa.

Primeiro, precisamos perceber que o tempo não pode restringem a Deus. Para nós mortais, umas poucas décadas são um longo tempo. Mas nosso Deus é um Deus eterno. Para Ele, até mesmo mil anos não representam muito. Embora o tempo possa nos restringir, não pode restringir a Ele. Por isso, ainda que acreditemos num Senhor que morreu uma vez por nós há muitos anos atrás, somos salvos.

A Bíblia diz que o Senhor Jesus ofereceu a Si mesmo uma vez e consumou a obra de redenção (Hb 7:27). Ele é Deus. É por isso que Ele pode transcender o tempo para redimir aqueles que existiram a milhares de anos antes Dele assim como aqueles a milhares de anos depois Dele. Ele não apenas pode redimir aqueles a milhares de anos depois Dele; se, infelizmente, o mundo prosseguir por milhões de anos mais, Sua redenção mesmo assim será efetiva. Uma vez que Ele terminou a Sua obra, ela foi consumada para sempre. Se um pecador deseja ser salvo agora, o Senhor não precisa morrer por ele de novo. Este alguém precisa somente aceitar o mérito da oferta única do Senhor, e será salvo. Nossa fé não está restringida pelo tempo. A fé pode conduzir alguém para a realidade da eternidade. Como os homens do Antigo Testamento olhavam para um Salvador que viria e eram salvos, do mesmo modo nós olhamos para um Salvador no passado e somos salvos. O fato de que a questão está no passado não significa que tenha passado. Antes, significa que está feito. Os homens do Antigo Testamento olharam adiante. Nós no presente tempo olhamos para trás. A fé fez com que aqueles do Antigo Testamento aceitassem um Salvador que viria. Não fará a nossa fé com que aceitemos um Salvador no passado?

Ao lermos Hebreu 9:12-15 seria muito significativo se ligássemos os três “eternos” destes versos. O que o Senhor realizou foi uma redenção eterna. Por isso, sempre que os homens crêem Nele, recebem essa redenção. Devemos perceber que o valor da cruz não foi determinado pelo homem. Antes, foi determinado por Deus. Deus considera a redenção da cruz como eterna. Portanto, nós pecadores que não temos justiça em nós mesmos devemos reconhecer a palavra de Deus como a verdade e devemos agir em conformidade com a Sua palavra e crer na cruz de Seu Filho e ser salvo.

O TEMPO DA CRUZ

Este é o ponto mais crucial. Embora a Bíblia diga que o Senhor Jesus ofereceu uma vez o sacrifício pelos pecados, ela aponta que “havendo oferecido um sacrifício pelos pecados, [Ele] está assentado para sempre…” (Hb 10:12). A palavra “um” significa que o sacrifício do Senhor pelos pecados foi perfeito; Ele precisou redimir o homem dos pecados apenas uma vez. Contudo, esse sacrifício pelos pecados é para sempre. É um sacrifício eterno pelos pecados! Isso significa que não apenas o efeito desse sacrifício pelos pecados é eterno, mas que o sacrifício em si mesmo é eterno. Embora Cristo tenha ressuscitado e viva para sempre, é como se a Sua cruz continuasse a existir! Possamos nós perceber a eternidade da cruz! Não é um evento passado de dezenove séculos atrás. Ele permanece atual ainda hoje.

Apocalipse 13:8 diz: “O Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”. O nosso Senhor é o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo até agora e para sempre. Para Ele, a cruz não é meramente um evento de um certo tempo, numa certa data de um certo mês de um certo ano. Antes, é algo que existiu desde a fundação do mundo até agora. Quando Ele criou o homem, Ele já anteviu o preço da redenção vindoura. Ele criou o homem com a Sua força. Do mesmo modo Ele redimiu o homem com o Seu sangue. É como se Ele fosse crucificado desde o princípio quando criou homem. Por milhares de anos Ele sofreu o prolongado sofrimento da cruz. Aquela morte no Gólgota meramente significou o pesar que o Espírito de Deus tinha agüentado por um longo tempo. Que graça é isso! Que maravilha é isso! Não temos palavras para expressar o significado desse verso. Antes de o Senhor Jesus deixar o céu, e enquanto ainda estava na glória, Ele já sabia do sofrimento da cruz. Ele o sabia durante os milhares de anos antes de vir. Ele sabia disso no tempo da criação. Desde a eternidade passada, a cruz tem estado no coração de Deus. Quando consideramos o quanto na eternidade passada Deus sabia que estava para criar o homem e que o homem se tornaria caído, percebemos quanto o Seu coração, humanamente falando, deve ter sido afligido por isso. Porque Ele amou tanto os homens, que ordenou antes da fundação do mundo que Cristo morreria em nosso favor (1 Pe 1:20). Embora Cristo tenha aparecido somente uma vez nos últimos tempos pelos nossos pecados, por causa do Seu amor pelos deste mundo Ele foi afligido e sofreu desde a fundação do mundo, como se já fosse crucificado mil vezes! Que pena que tantas pessoas ainda agora estão afligindo a Ele, como se O crucificassem novamente. Quando percebemos Seu amor, não podemos deixar de nos maravilhar e nos colocar em temor diante Dele! Esse é o coração de Deus! Se percebermos isso, não iremos amar a Deus ainda mais? Por isso, humanamente falando, aqueles do Antigo Testamento creram numa cruz que viria, enquanto que aqueles do Novo Testamento crêem numa cruz que já veio. Na verdade, não existe distinção de tempo e época. A cruz do Antigo Testamento é algo presente, e a cruz do Novo Testamento é também algo presente. Possa o Senhor abrir nossos olhos para vermos que a cruz é eterna.

A ATUALIDADE ETERNA DA CRUZ

Aqueles do Antigo Testamento já morreram. Devemos, portanto, prestar atenção somente naqueles do tempo presente. Muitas pessoas empurram a cruz de volta para dezenove séculos atrás e a consideram como velha, antiquada, e obsoleta. Embora seja verdade que a história do mundo considere o Gólgota de Cristo como um evento histórico, na experiência espiritual dos crentes a cruz de Cristo ainda é um evento atual. Não é velho, antiquado, ou obsoleto. Podemos considerar uns poucos versos.

Hebreus 10:19 e 20 dizem: “Tendo pois irmãos, ousadia para entrar no santuário pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho, que Ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela Sua carne”. A fim de compreender esses dois versos, temos que entender as coisas mencionadas no Antigo Testamento. Nos tempos antigos, o tabernáculo era dividido em duas partes. A primeira parte era chamada de lugar santo, e a outra parte era chamada de santo dos santos. As duas partes eram divididas por um véu. Aqueles que entravam no santo dos santos tinham que passar pelo véu. A glória de Deus era manifestada dentro do santo dos santos. Nenhuma pessoa comum podia entrar no santo dos santos. Somente o sumo sacerdote podia entrar ali uma vez por ano. Antes de entrar ali, tinha que oferecer primeiro sacrifícios e fazer expiação por ele mesmo e pelas pessoas e tinha que entrar com o sangue de touros e cabras. Para nós agora, entramos no santo dos santos pelo sangue do Senhor Jesus. Isso significa a cruz. Antigamente o sumo sacerdote entrava no santo dos santos somente uma vez por ano. Agora, pela cruz do Senhor Jesus nós podemos entrar no santo dos santos a qualquer hora. Qual é o significado de entrar no santo dos santos? Significa que podemos ir a Deus para confessar nossos pecados, ter comunhão com Ele, e estar em Sua presença.

Aqueles que entravam no santo dos santos tinham que passar pelo véu. O véu significa o corpo do Senhor Jesus. Quando Ele foi crucificado, o véu do templo foi rasgado ao meio de alto a baixo. Se o véu não tivesse sido rasgado, os homens não poderiam passar por ele. Se o Senhor Jesus não tivesse morrido e não tivesse partido o Seu corpo, os homens não poderiam passar por Ele e não poderiam entrar no santo dos santos. No tempo presente, vamos a Deus através da morte do Senhor Jesus. Isso também significa a cruz.

Nossa Bíblia nos diz que esse caminho através do véu foi aberto para nós pelo Senhor Jesus. Na verdade, Ele voluntariamente abriu mão de Sua vida para nos redimir.

Precisamos prestar atenção no fato de que esse caminho é “novo e vivo”. A palavra “novo” na linguagem original se refere a algo recém oferecido ou recém sacrificado. Aqui vemos a atualidade eterna da cruz! O sumo sacerdote não podia confiar nas ofertas ou sacrifícios dos anos anteriores. Tinha que haver ofertas recentes e sacrifícios recentes. Ele somente ousava entrar e estava capacitado para entrar no santo dos santos pelo sangue destes animais. Que tal nós agora? Vamos a Deus pelo sangue do Senhor e através do Seu corpo. Todas as vezes que vamos para diante de Deus, não temos que oferecer novos sacrifícios. Nosso Sacrifício é sempre atual! A cruz do Senhor Jesus não se torna velha com os anos. Sua atualidade é a mesma hoje e sempre, como foi na ocasião de crucificação. Sempre que vamos para diante de Deus, podemos sentir a atualidade da cruz do Senhor. Nos tempos antigos, a menos que o sumo sacerdote tivesse sangue novo de sacrifícios recém oferecidos, poderia morrer diante do Senhor. Os sacrifícios dos anos anteriores não podiam remi-lo de seus pecados do corrente ano. Se Deus não considerasse o sacrifício remissório do Senhor como eternamente atual, teríamos perecido há muito tempo. Graças ao Senhor que a cruz é eternamente atual diante do Senhor. O Senhor considera a crucificação como algo recentemente consumado.

Este caminho é também “vivo”. Essa palavra também pode ser traduzida como “vivo para sempre”. Esse caminho é um caminho que é “recém oferecido”. É também um caminho que é “vivo para sempre”. Cristo morreu e ressuscitou; Ele consumou a salvação para nós e nos conduziu a Deus. Deveríamos saber que Cristo ressuscitou e que a Sua ressurreição permanece até hoje. Deveríamos saber também que Cristo morreu e que a Sua morte substitutiva continua até hoje. Os maiores eventos na vida terrena de Cristo foram a Sua morte e ressurreição. Ambos não são passados, eventos obsoletos. Hoje ainda são atuais. Já que temos tal Salvador atual e remidor, devemos recebê-Lo e ir a Deus através Dele para receber o perdão e a benção.

Em Apocalipse 5 está registrado quando João viu ao Senhor Jesus Cristo no céu. Ele disse: “Vi no meio do trono e das quatro criaturas viventes, e no meio dos anciões, um Cordeiro em pé como havendo [recém] sido morto” (verso 6, de acordo com o original). Este é um quadro do futuro. Quando João viu o Senhor no Céu, foi muitos anos depois do Gólgota. Contudo o Senhor era como Alguém que havia sido morto. As palavras “havendo sido morto” podem também ser traduzidas como “havendo sido recentemente morto”. No céu no tempo da introdução da eternidade, o Senhor ainda será Aquele que é recém morto! Ah, a atualidade eterna da cruz! Verdadeiramente a cruz passa por todas as eras e permanece atual! Se a cruz será atual no céu naquele dia, como podemos considerá-la como sendo velha hoje? No futuro quando a glória celestial irromper, a glória da cruz se comprovará imarcescível! Quando os remidos de Deus ascenderem ao céu, ainda acharão a redenção da cruz tão atual quanto antes!

Um ponto merece nossa atenção. No Antigo Testamento Cristo é duas vezes chamado de o Cordeiro (Is 53:7; Jr 11:19). Nos evangelhos e em Atos é mencionado como o Cordeiro três vezes (Jo 1:29, 36; At 8:32). Nas Epístolas é mencionado como o Cordeiro uma vez (1 Pe 1:19). Contudo, em Apocalipse é mencionado como o Cordeiro vinte e oito vezes! A glória da cruz do Senhor excederá em brilho por todas as eras! Deus propositalmente chama o Seu Filho de Cordeiro neste livro da eternidade. O Cordeiro aqui é visto como havendo sido recém morto. A ferida ainda está ali! A ferida eterna garante a salvação eterna. A crucificação do Cordeiro se torna nosso memorial eterno. Deus jamais podem se esquecer disso. Os anjos jamais podem se esquecer disso, e aqueles ascendidos e salvos jamais pode se esquecer a redenção da cruz. Quem receberá esta salvação eterna? A cruz é o único lugar inabalável. Todos aqueles que pecaram devem vir.

O MEMORIAL DA CRUZ

Deus mesmo conhece o valor eterno da cruz de Seu Filho. Ele manifestou a todos a atualidade eterna da cruz de Seu Filho. Agora Ele deseja alcançar os redimidos para que eles possam também conhecer esse fato. A compreensão da atualidade eterna da cruz traz força. A compreensão da atualidade eterna da cruz traz amor. A compreensão da atualidade eterna da cruz traz vitória. A compreensão da atualidade eterna da cruz traz longanimidade. Se realmente conhecemos a atualidade da cruz, que inspiração receberemos dela! Que motivação vamos obter dela! Se a cruz não é velha em nosso coração, nós seguramente teremos uma comunhão íntima com nosso Senhor. Se um crente se esqueceu da cruz, isso significa que esqueceu o Senhor.

O Senhor pretende que a Sua cruz seja sempre atual em nosso espírito e em nossa mente. É por isso que Ele nos disse: “Fazei isso, todas as vezes que beberdes, em memória de Mim” (1 Co 11:25). As palavras “todas as vezes” implicam em “freqüentemente”. A razão de o Senhor estabelecer a Sua ceia é para que os Seus santos se lembrem Dele sempre em Sua morte. Ele previu que muitos considerariam a Sua cruz obsoleta. Foi por isso que Ele encarregou Seus discípulos de sempre se lembrarem de Sua morte na ceia do Senhor. Ele sabia que os negócios desse mundo, as distrações, e as tentações viriam e iriam secretamente roubar de nós a atualidade da cruz. É por isso que Ele nos encarregou de tomar a ceia freqüentemente e nos lembrar Dele. Quão atual foi a cruz para nós quando a princípio cremos! Mas depois de muitos dias, a cruz parece ter se tornada nebulosa. Quando a princípio percebemos a vitória da cruz, quão atual ela foi para nós! Mas pela freqüente menção da sua glória, a cruz parece ter se tornado comum. Contudo, o Senhor não quer nos ver perder a atualidade da cruz. Ele deseja que nos lembremos da cruz freqüentemente e sempre tenhamos a morte do Senhor diante de nós.

É uma pena que tenhamos perdido a inspiração da cruz do Senhor Jesus. A crucificação do Senhor Jesus deveria ser amplamente retratada diante dos nossos olhos o tempo todo (Gl 3:1). Nunca devemos considerar a cruz do Senhor como um mero monumento histórico.

O livro de Gálatas é uma epístola sobre a cruz. Quando a cruz foi amplamente retratada diante dos gálatas, quão livres eles eram! Quando eles tentaram receber o Espírito Santo por guardarem a lei ou serem aperfeiçoados pela obra da carne, perderam a atualidade da cruz. Alguém pode descrever a condição espiritual de um santo apenas pela sua atitude em relação a cruz. Se ele considera a cruz como algo velho, mostra que está separado da fonte de sua força.

A CRUZ E A ESPIRITUALIDADE

Quais são os benefícios de conhecer a atualidade da cruz? Os benefícios são inumeráveis. Sabemos que qualquer coisa nova facilmente toca os homens. Se algo aconteceu há muito tempo, não tem o poder de mexer com os homens. Se tivermos a cruz do Senhor amplamente retratada diante de nós todos os dias, o quanto seremos movidos por ela! José de Arimatéia nos tempos antigos só quis ser discípulo de Cristo em segredo. Nicodemos somente se atreveu a ir ver o Senhor de noite. Mas quando ambos viram a crucificação do Senhor, foram grandemente movidos. Como resultado, eles arriscaram ofender a multidão e pediram pelo corpo do Senhor para o sepultamento. A cruz pode fazer dos homens mais medrosos os mais corajosos. Quando contemplaram Jesus na cruz e a forma com que sofreu e foi desprezado pelos homens, o amor da cruz os inspirou e os moveu. Deste modo, se temos a morte de Cristo diante de nós o tempo todo, seremos movidos do mesmo modo que eles foram. A cruz então se tornará a nossa força.

“Permaneceremos no pecado para que a graça abunde?” (Rm 6:1). Deveríamos estar capacitados para responder a esta pergunta. Se verdadeiramente vemos a cruz do Senhor o tempo todo, se verdadeiramente vemos como Ele sofreu ali, se vemos as feridas em Suas mãos e pés e a coroa de espinhos em Sua cabeça, se vemos como o Seu amor e o Seu sangue foram misturados, e se vemos os Seus sofrimentos e tristeza, seremos profundamente movidos, e não cessarmos de fazer coisas que não O agradam ou causam a Ele tristeza? É porque falta para nós a eterna revelação atual da cruz diante de nós menosprezamos o amor do Senhor.

Se a cruz na qual o Senhor morreu por nós é sempre atual, nossa crucificação com Ele vai também se tornar imutável. Se nós temos uma revelação atual da cruz dia após dia, adicionaremos a nós mesmos muitas experiências atuais de fé em nossa morte juntamente com Ele. É porque não vemos uma cruz diária que temos muitas experiências de pecado ressurgindo em nós. Se nós vemos a atualidade eterna da cruz e sua imutável natureza, nossa morte para o pecado também será imutável. Muitos filhos de Deus caem porque não percebem que a morte da cruz não é apenas algo que aconteceu de uma vez por todas, mas algo que está conosco continuamente o tempo todo.

Sabemos que muitas vezes nós caímos inconscientemente. Agradecemos a Deus o Pai, que não nos rejeita por causa disso. A Bíblia diz que “o sangue de Jesus Seu Filho nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1:7). Ele não nos limpa só uma vez. O sangue de Seu Filho ainda está nos purificando continuamente. A palavra “purifica” no original tem um sentido de uma ação contínua. Essa é a obra perpétua da cruz. Quão maravilhoso é que Deus tenha preparado para nós tal salvação! Se tropeçarmos acidentalmente, e vamos a Ele e confessamos nossos pecados, Ele nos perdoará, e o sangue de Seu Filho nos purificará de todo pecado. Que atualidade eterna há na cruz!

SALVAÇÃO ETERNA

Se percebermos isso, irromperemos em altos louvores a Deus o Pai. Infelizmente, muitas pessoas não sabem que são salvas para sempre. Não somos apenas salvos ou salvos para sempre. Se uma vez aceitamos verdadeiramente o sacrifício do Senhor pelo pecado, e se uma vez verdadeiramente confiamos no mérito de Sua cruz, Sua cruz irá para sempre falar a nosso favor. “Esta é a lei do holocausto: o holocausto será queimado sobre o altar toda a noite até pela manhã, e o fogo do altar arderá nele” (Lv 6:9). O holocausto é um tipo de Cristo, e o altar é um tipo da cruz. A noite é um tipo da presente era cristã. É a mesma noite como a de Romanos 13:12. Desde que o Sol d justiça (o Senhor Jesus) partiu deste mundo, este mundo se tornou a noite. Ele permanecerá a noite até que venha de novo. O holocausto será queimando até a alvorada! Na era presente, o mérito da redenção do Senhor está rogando continuamente por nós! De noite, os israelitas podem ainda estar no acampamento murmurando, mas o holocausto no altar continuamente intercede por eles! Deveríamos perceber que do mesmo modo o sangue está intercedendo por nós. Uma vez que aceitamos a cruz, ela fala por nós sempre! Esta é a salvação eterna.

No futuro, quando vemos a cruz no céu, ela não se tornará velha por causa das eras. Por essa razão, a salvação que recebemos não se tornará em um mero monumento por causa do tempo. A eternidade não será uma vida monótona e insípida. A eternidade pode ser longa, mas ela não tirará a glória da cruz. Na eternidade, veremos Deus revelando a glória da cruz a nós ponto por ponto. Senhor, nos ensine a atualidade eterna da cruz!

Por que razão os hostes celestiais glorificam ao Senhor? “Digno é o Cordeiro que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória e ações de graça” (Ap 5:12). Naquele dia, também louvaremos ao Senhor para sempre por causa da Sua cruz. A cruz é o assunto da Bíblia na Terra hoje. Ela será o motivo do louvor na glória no futuro.

Irmãos, quão atual é a cruz! A cruz não conhece o que é o tempo. A cruz não conhece o que é a velhice. Possamos nós ser constantemente movidos por ela! Ah, possamos nós ser desperdiçados na cruz todos os dias de nossa vida! Ah, possa a cruz não perder seu poder sobre nós nem um dia! Ah, possamos nós permitir que a cruz faça uma obra profunda em nós todos os dias! Possa o Pai abrir nossos olhos para vermos o mistério escondido na cruz de Seu Filho. “Mas longe esteja de mim gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl. 6:14).

RUDE CRUZ

George Bennard (1873-1958)

Rude cruz se erigiu! Dela o dia fugiu, Em sinal de vergonha e de dor!
Mas eu amo essa cruz, sobre a qual meu Jesus Deu a vida por mim, pecador.

Sim, eu amo a mensagem da cruz;
Até morrer eu a vou proclamar.
Levarei eu também minha cruz,
Até por uma coroa trocar.

Desde a glória dos Céus, o Cordeiro de Deus Ao Calvário humilhante baixou;
E essa cruz tem pra mim atrativos sem fim, Pois Jesus nela me resgatou.
Nessa cruz padeceu, desprezado, morreu Meu Jesus para dar-me o perdão.
Eu me alegro na cruz, dela vem graça e luz Para minha santificação.
Eu aqui, com Jesus, a vergonha da cruz Quero sempre levar e sofrer;
Ele vem me buscar, e com Ele, no lar, Uma parte na glória hei de ter.

 

Watchaman Nee [ Traduzido do artigo “The Time of The Cross”. Publicado pela primeira vez na revista “O Cristão”, Volume 1, Número 3 de janeiro de 1926 ]