O Senhor Deus

A revelação que Deus dá de Si mesmo é progressiva e corresponde à natureza das relações estabelecidas com a Sua Criatura. Deveríamos, então, considerar a solenidade destas Palavras: “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum deus há além de mim; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro, e ninguém há que escape da minha mão” (Dt 32:39).

O Deus Criador

A Criação inteira proclama o poder e a sabedoria dAquele que ordenou todas as coisas.

  • Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos (Sl 19:1);
  • Levantai ao alto os vossos olhos, e vede quem criou estas coisas (Is 40:26);
  • Porque as coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem, pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inexcusáveis (Rm 1:20).

Este testemunho torna o homem responsável acerca do seu Criador, e se a fé está nele, capacita-o para receber a Sua Palavra (Salmo 19).

  • No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no principio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez (Jo 1:1-3);
  • Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na Terra (Cl 1:16);
  • Pela fé entendemos que os mundos, pela palavra de Deus> foram criados (Hb 11:3).

O Deus Justo e Santo

E chamou o Senhor Deus a. Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me. E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore. de que te ordenei que não comesses? (Gn 3:9-11).

Responsável perante o seu Criador, o homem deve-Lhe submissão. Esta primeira cena no paraíso terrestre fala-nos dos direitos de Deus e da incapacidade do homem para poder cumpri-los. Desta primeira desobediencia provém a história da Humanidade na sua perpétua rebelião contra Deus.

  • Justiça e Juízo são a base do teu trono (Sl 89:14);
  • Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos (Is 6:3);
  • Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a vexação não podes contemplar (Hb 1:13);
  • Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim, também, a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram (Rm 5:12);
  • Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso (Ap 4:8).

Deus é Luz, Deus é Amor

Estas duas declarações de I Jo 1:5; 4:8, 16 falam-nos da natureza essencial de Deus, enquanto que a Sua Justiça e a Sua Santidade sublinham o que está em relação com as Suas Criaturas. Nada pode alterar o que Deus é em Si mesmo: Não há nele trevas nenhumas (I Jo 1:5). No Pai não há mudança nem sombra de variação (Tg 1:17).

  • Ele é a Rocha, cuja obra é perfeita, porque todos os seus caminhos juízo são; Deus é a verdade, e não há nele injustiça; justo e recto é. Vede agora que Eu, Eu O sou (Dt 32:4, 39);
  • “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente.” (Hb 13:8).

A estes caracteres de Luz e Amor correspondem as manifestações de graça e de verdade, reveladas muitas vezes juntas nas Escrituras. É a forma sob a qual o incompreensível da natureza divina é colocado ao nosso alcance. A Palavra de Deus é o seu apoio e o Espírito Santo o Agente dispensador ou distribuidor, e é então que a fé os recolhe e se apropria deles.

A Relação de Deus com a Sua Criatura

Embora esta relação tenha sido interrompida por causa do pecado, o pensamento de Deus, assim como o Seu desejo quanto ao homem, permanecem intactos Deus estabeleceu, para felicidade do homem, uma relação correspondente à revelação que Ele dá de Si mesmo, e que sofreu uma progressão com o decorrer dos tempos.

Em Abel encontramos a base destas relações: o seu sacrifício. O sacrifício é o único meio que permite ao homem pecador poder entrar em relação com o Deus Santo. Prefigurando o sacrifício de Cristo sobre a Cruz, a oferenda de Abel, bem acolhida da parte de Deus, estabeleceu um princípio imutável: Por ela, depois de morto ainda fala (Hb 11:4).

Chegastes ao monte de Sião, e à cidade de Deus, do Deus vivo… e a Jesus, o Mediador de uma Nova Aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel (Hb 12:22-24).

Até Moisés, esta relação foi individual. Enoque, Noé e os patriarcas provaram a doçura destas relações, que implicavam a fé nos que delas desfrutavam, e de onde provinham as promessas acerca de uma descendência, ainda antes de a nação ter sido constituída e poder entrar nesta relação.

Quando Deus Se revelou a Moisés, declarou-lhe que era o Deus de Israel. Com o nome de Jehovah, o Eterno, entra em relação com um povo que não O conhecia e a quem vai revelar o Seu grande poder ao livrá-lo da escravidão que sofria no Egipto.

Toda a História de Israel, até ao cativeiro em Babilónia, está caracterizada por esta relação com Deus, frequentemente perturbada pelas múltiplas desobediências deste povo, que só subsistiu graças à grande paciência de Deus. Mas esta paciência chegou ao fim e Deus teve de abandonar o povo que havia escolhido.

Todavia, a Sua grande misericórdia permite que um Remanescente volte ao país e ali permaneça até à vinda de Jesus Cristo. Durante este período, Deus toma o nome de Jehovah dos Exércitos para falar com eles. Deixa de ser o Deus de Israel para Se converter no Deus dos Exércitos Celestiais, pronto a intervir em favor do Seu povo, mas sempre disposto a esperar o seu arrependimento, para actuar em seu favor.

Na expectativa da restauração do povo terrestre, a vinda a rejeição de Jesus Cristo abrem uma nova etapa, caracterizada por uma nova revelação de Deus e urna nova relação com Ele. Pouco depois da Sua ressurreição, o Senhor confia a Maria Madalena uma mensagem de um extraordinário alcance: Vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus (Jo 20:17).

Esta revelação coloca o crente actual numa relação muito íntima com Deus: Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus (I Jo 3:1). E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais escravo, mas filho (Gl 4:6-7). Que direito tínhamos? Nenhum, por hipótese; só a graça de Deus dá acesso a este favor. Se fizemos a Deus a maior das ofensas, não é isto menosprezar tal dom de graça?

O conhecimento de Deus não pode ser adquirido senão pela revelação que Ele dá de Si mesmo, e a Bíblia é esta revelação! Nenhuma filosofia nem nenhuma ciência podem substituir a simples leitura da Palavra de Deus. O coração que se deixa impregnar por ela é o único capaz de sondar as Santas Escrituras, para descobrir nelas o que possa satisfazê-lo plenamente, tanto para o presente como para a eternidade.

 

F. Gfeller [ “Leituras Cristãs” ]