O Oleiro e o Barro

A figura de Deus como um Oleiro, e nós o barro, é uma das mais simples e solenes usadas na Palavra de Deus. Simples, pois facilmente entendemos o que Deus quer nos ensinar com esta figura; solene, pois o que entendemos afeta profundamente nossa maneira de pensar e viver.

Há dois trechos na Palavra de Deus que tratam mais detalhamente sobre este assunto: Isaías 29 e 30 e Jeremias 18 e 19. A figura é também usada em outros trechos, como Is 64:8 (“Mas agora, ó Senhor, Tu és nosso Pai; nós o barro e Tu o nosso oleiro”) e Rm 9:21 (“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?”). Os dois trechos mencionados acima, porém, não apenas mencionam a figura de passagem, mas tratam dela em bastante detalhes.

A figura é detalhada em dois trechos não por mera repetição, mas para destacar duas verdades importantes relacionadas ao Oleiro e ao barro. Em Isaías a ênfase é no barro, e em Jeremias no Oleiro. Isaías destaca a Palavra de Deus, e Jeremias as ações de Deus.

O Barro (Isaías 29 e 30)

Estes dois capítulos destacam o erro de Israel, que confiava mais na palavra de homens do que na Palavra de Deus.

Deus anuncia a Seu povo que faria uma grande obra no meio deles (29:14), mas que Israel estaria tão cego que não veria nem entenderia nada (29:10-12) até o dia quando, subitamente, o juízo caísse sobre Israel (30:13-14). E por quê? Deus diz: “Porque este povo se aproxima de Mim, e com a sua boca, e com os seus lábios Me honra, mas o seu coração se afasta para longe de Mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído” (29:13); “porque este é um povo rebelde, filhos mentirosos, filhos que não querem ouvir a lei do Senhor. Que dizem aos videntes: Não vejais; e aos profetas: Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos coisas aprazíveis, e vede para nós enganos” (30:9-10).

Israel fechou os ouvidos para a palavra do Senhor. Preferiam ouvir as mentiras dos seus falsos profetas do que confiar na sabedoria do Deus onisciente. Pervertiam tudo, “como se o oleiro fosse igual ao barro, e a obra dissesse do seu artífice: Não me fez; e o vaso formado dissesse do seu oleiro: Nada sabe” (29:16). Devido a esta rebeldia de Israel, o Senhor diz: “porquanto rejeitais esta palavra … Ele o quebrará como se quebra o vaso do oleiro” (30:12-14).

Pense na situação ridícula que o profeta descreve em 29:16. Imagine, se possível, o barro questionando o oleiro! Imagine, se o possível, o vaso achando que o oleiro nada sabe! Pois era este o erro arrogante e prepotente de Israel — o mero barro (Israel) considerando-se mais sábio que o Oleiro (Deus).

Apesar de espantados com a prepotência de Israel, devemos reconhecer que o mesmo acontece em nosso redor hoje. Já fomos avisados por Deus que viriam tempos em que os homens “não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (II Tm 4:3-4).

Assim como Israel clamava aos seus profetas: “Não profetizeis para nós o que é reto; dizei-nos coisas aprazíveis, e vede para nós enganos” (ou como traduz a ARA: “…profetizai-nos ilusões”), assim também hoje multidões clamam aos seus mestres: “Não nos ensineis a sã doutrina (não a suportamos); dizei-nos coisas aprazíveis, profetizai-nos fábulas!” O “cristão” do século XXI tem coceira nos ouvidos que só é satisfeita pelas fábulas inventadas por homens ou demônios (I Tm 4:1), mas não tem tempo ou disposição para ouvir a Palavra de Deus.

Quão triste e lamentável é esta situação; estamos pervertendo tudo, como se o oleiro fosse igual ao barro! Irmãos, Deus é o Oleiro — nós somos apenas barro! Como ousamos questionar Sua Palavra? Como ousamos sugerir uma forma melhor de servi-Lo? Como ousamos não obedecer?

O Oleiro (Jeremias 18 e 19)

Aqui em Jeremias o enfoque muda. A figura é a mesma, mas agora destacando a soberania absoluta do Oleiro. Primeiro Jeremias vê um oleiro trabalhando, e fazendo “conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer” (18:4). O oleiro não precisa pedir a opinião do barro; ele faz o que ele quer. Deus então afirma claramente: “Não poderei Eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na Minha mão, ó casa de Israel.” (18:6).

Nos versículos seguintes (18:7-10) Deus afirma que é Seu direito agir conforme Ele quer em relação a qualquer povo da Terra. Além disto, como Israel esqueceu-se da soberana majestade de Deus e foi atrás de outros deuses (18:15, 19:4-5), o Senhor quebra-los-ia como o oleiro quebra um vaso defeituoso (19:6-13).

Se Isaías destaca a Palavra de Deus (o barro nunca saberá mais que o oleiro), Jeremias destaca as ações de Deus (o oleiro nunca faz o que o barro quer, mas o que ele quer). Como diz Paulo: “…não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9:21). Da mesma forma, não tem Deus direito de fazer o que Ele quer nas nossas vidas? Claro que sim! Ele é o oleiro, nós somos apenas o barro! Ele tem até o direito de quebrar nossa vida e começar tudo de novo!

Pare um pouco agora, porém, e pense bem no que estamos dizendo! Deus tem autoridade e direito para quebrar a minha vida e começar tudo de novo? Sim, Ele tem; mas isto é muito mais sério e solene do que às vezes pensamos. É fácil cantar:

“Como Tu queres, Senhor, sou Teu

Tu és o Oleiro, barro sou eu;

Quebra e transforma até que emfim

Tua vontade se cumpra em mim”

As palavras deste coro são bíblicas, e seria ótimo se todos que as repetissem sinceramente entendessem e aceitassem o que cantam. Precisamos, porém, parar um pouco e analisar estas palavras. Você estaria mesmo disposto a ter sua vida “quebrada” por Deus? Eu não me refiro a sofrer um grave acidente, ou passar por uma enfermidade terrível. Não: ser “quebrado” é mais do que isto. É padecer como padeceu Jó, perdendo tudo que ele já tinha (a não ser sua vida).

Imagine se tudo que você construiu até hoje — seu emprego, sua reputação, suas amizades, sua família — tudo fosse tirado de você; imagine se Deus quebrasse, literalmente, sua vida, e começasse tudo do zero novamente. Qual seria a sua reação? Qual seria a minha reação? Teríamos a confiança calma de Jó? Como são preciosas as palavras deste homem no meio da sua dor: “Ainda que Ele me mate, nEle esperarei” (Jó 13:15).

Meu alvo é ser como simples barro nas mãos do Oleiro; meu alvo é que a vontade dEle se cumpra em mim. Quanto, porém, estarei disposto a pagar para alcançar este alvo? Estaríamos dispostos a sermos “quebrados” pelo Senhor? Ele raramente faz isto — será que é porque sabe que poucos de nós o suportaríamos? (I Cor 10:13). Mas é bom que saibamos que Ele tem este direito. O exemplo impressionante de Ezequiel (Ez 24:15-18) ilustra isto.

Você já questionou algo que Deus fez? Já achou injustiça algo que aconteceu com você? Lembremos, irmãos e irmãs: Deus é o Oleiro, nós somos apenas o barro! Ele tem poder e direito de nos tratar como bem entende. E por que temer? Sabemos que Ele sempre busca o nosso bem, e qualquer aflição momentânea que vier (mesmo que sejamos “quebrados”) será somente para o nosso bem.

Ah, que possamos repetir com Jó: “Ainda que Ele me mate, nEle esperarei!”

Conclusão

Deus é o Oleiro, nós somos o barro. Isto quer dizer que (a) eu devo obedecer tudo que Ele me pede na Sua Palavra e (b) devo aceitar tudo que Ele faz na minha vida. É certo que não entenderei tudo que Ele me pede, e não entenderei tudo que Ele faz na minha vida. Mas Ele é o Oleiro, não eu; eu sou apenas o barro. Quão abençoado sou, porém, por ser barro que Ele tomou nas mãos, e que Ele moldará para a Sua glória. Oleiros humanos falham — a Palavra do meu Oleiro, porém, e as ações do meu Oleiro, serão, todas elas, perfeitas em todos os seus aspectos. Eu, o vaso, quando visto na glória eterna, serei um vaso perfeito, moldado conforme a vontade de Deus, o Oleiro.

Que entendamos e vivamos de acordo com isto hoje.

Willian J. Watterson

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