O Céu e o Inferno

Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus; e os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes” (Mateus 8:11-12).

(…) Essa tarde pretendo animá-los para que busquem o caminho ao céu. Terei que expressar também algumas coisas severas relativas ao fim dos homens que se perdem no abismo do inferno. Sobre esse dois temas irei pregar, com a ajuda de Deus. Porém, lhes suplico, por amor de suas almas, que discirnam o que é correto e o que não é; comprovem se o que eu lhes digo é a verdade de Deus. Se não é, rejeitem totalmente meu ensino e o joguem fora para bem longe – mas se é verdade, e o desprezam, será por sua conta e risco; pois como terão que responder diante de Deus, o grandioso Juiz de céus e terra, não lhes irá bem se desprezam as palavras desse servo e de Sua Escritura.

Meu texto consta de duas partes. A primeira é muito agradável para mim, e me dá grande prazer; a segunda é terrível; mas posto que ambas são verdades, ambas devem ser pregadas. A primeira parte de meu texto é: “Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus”. A frase que eu chamo de a parte negra, escura e ameaçadora é essa: “E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes”.

I. Tomemos a primeira parte. Aqui existe uma PROMESSA EXTREMAMENTE GLORIOSA. Irei ler ela novamente: “Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus”. Gosto muito desse texto, porque me revela o que é o céu, e me apresenta um belo quadro dele. É dito que é um lugar onde me sentarei com Abraão, Isaque e Jacó. Oh, que pensamento mais doce é esse para o trabalhador. Muitas vezes ele limpa seu suor de sua fronte, e se pergunta se acaso existe uma terra onde não terá que afanar-se nunca mais. Muito raramente come uma casca de pão que não esteja úmida com seu suor. Diversas vezes vai para casa esgotado e se deixa cair numa cadeira, talvez desmaiado e cansado para poder dormir. Ele se pergunta: Ah, não existe um a terra onde eu possa descansar? Não existe um lugar onde eu possa ficar quieto?” Sim, você que é filho do trabalho árduo e estafante:

“Existe uma terra feliz
Longe, longe, muito longe”

Onde esse trabalho árduo e estafante é desconhecido. Alem do firmamento azul, existe uma formosa cidade luminosa, cujos muros são de jaspe, e cuja luz brilha mais que o sol. Ali “os ímpios deixam de perturbar, e ali os de esgotadas forças descansam”. Ali estão os espíritos imortais que não precisam se limpar do suor de suas frontes, pois “não semeiam nem segam”, nem estão submetidos a um trabalho árduo e cansativo –

“Ali em um monte verde e florido
Suas cansadas almas se sentarão:
E com gozos grandiosos farão
Um conta das fadigas de seus pés”

Para minha mente, uma das melhores visões do céu é que ele é uma terra de repouso; especialmente para o trabalhador. Os que não têm que trabalhar duro, pensam que amarão o céu como um lugar de serviço. Isso é muito certo. Porem, para o trabalhador, para o homem que labora arduamente com seu cérebro ou com suas mãos, sempre será um doce pensamento que exista uma terra onde iremos descansar finalmente.

Pronto, essa voz não será forçada mais: logo, esses pulmões não terão que se exercitar alem de seu poder; logo, esse cérebro não será atormentado pelo pensamento; mas eu me sentarei à mesa do banquete de Deus; sim, estarei reclinado no peito de Abraão, e estarei tranquilo para sempre; oh filhos e filhas de Adão que estão cansados, não terão que empurrar o arado em um ingrato solo no céu, não terão que se levantar para desempenhar árduos trabalhos antes que o sol nasça, e trabalhar ainda quando o sol tenha se posto já a um bom tempo; mas sim estarão tranquilos, estarão quietos, descansarão, pois todos são ricos no céu, todos são felizes lá, todos estão em paz. Trabalho duro, problemas, cansaços, esforços, são palavras que não podem ser soletradas no céu; não existem tais coisas ali, pois ali todos sempre repousam.

E notem com que boa companhia comparte. Eles “sentarão com Abraão, Isaque e Jacó”. Algumas pessoas pensam que não reconhecerão ninguém no céu. Mas nosso texto declara que nós nos sentaremos “com Abraão, Isaque e Jacó”. Então, tenho certeza que estaremos conscientes que eles são Abraão, Isaque e Jacó. Eu escutei a história de uma mulher que perguntou a seu marido, quando estava prestes a morrer: “meu querido, você crê que me conhecerá quando você e eu cheguemos ao céu?” Ele respondeu: “Se eu a reconhecerei? Vamos, sempre a conheci enquanto esteve aqui, e pensa que irei ser mais insensato quando chegue ao céu?” Penso eu que foi uma excelente resposta.

Se nós nos conhecemos aqui na terra, nos reconheceremos depois. Eu tenho queridos amigos que partiram para o além, e sempre é um pensamento doce para mim que, quando pise meu pé, como espero fazê-lo, no umbral no céu, ver minhas irmãs e irmão me tomarem pela mão, dizendo: “Sim, amado, já está aqui”. Parentes queridos que foram separados, se encontrarão novamente no céu. Alguns de vocês perderam uma mãe que se foi ao céu; e se você segue as pisadas de Jesus, você se encontrará com ela lá.

Em outro caso, parece-me que vejo a alguém que vem lhe receber à porta do paraíso; e ainda os laços de afeto natural possam ter sido esquecidos em certa medida – se me permitem usar uma figura – que abençoada ela seria quando ela se voltasse para Deus e lhe dissera: “Aqui estou eu, e os filhos que me tens dado”. Reconheceremos a nossos amigos: esposo, você reconhecerá sua esposa. Mãe, você reconhecerá a seus amados filhinhos; você via suas figuras quando jaziam brancas, ficando sem alento. Você se lembra como se jogou sobre suas tumbas ao momento de ser lançada a fria terra sobre eles, e se disse: “A terra à terra, o pó ao pó, as cinzas às cinzas;” porem, você voltará a escutar suas amadas vozes de novo; você escutará essas doces vozes uma vez mais; você ainda saberá que as pessoas que você amou, foram amadas por Deus. Por acaso não seria um lúgubre céu para nossa habitação, um onde não pudéssemos conhecer a ninguém e ninguém nos reconhecesse? Não me interessaria ir a um céu assim.

Eu creio que o céu é a comunhão dos santos, e que nos reconheceremos uns aos outros ali. Muitas vezes pensei que terei muito gosto em ver a Isaias; e tão logo chegue ao céu, creio que irei perguntar por ele, porque ele falou mais sobre Jesus do que todos os demais profetas. Estou certo que vou querer encontrar George Whitefield, quem continuamente pregou ao povo, e se gastou como zelo mais que seráfico. Oh sim, teremos uma companhia eleita no céu, quando cheguemos. Não haverá distinção entre cultos e incultos, clero e leigos, mas sim caminharemos livremente entre todos; sentiremos que somos irmãos; sentaremos-nos com “Abraão, Isaque e Jacó”.

Escutei outra vez sobre uma dama que recebeu a visita de um ministro em seu leito de morte, e lhe disse: “quero fazer-lhe uma pergunta, agora que estou a ponto de morrer”. “Bem,” perguntou o ministro, “qual é a pergunta?” “Oh”, respondeu ela, muito afetada, “quero saber se existem dois lugares separados no céu, pois eu não poderia suportar que Beth, a cozinheira, estivesse no céu junto comigo. Ela é tão pouco refinada”. O ministro deu a volta e respondeu: “oh, não se preocupe por isso senhora, não há temor disso; enquanto não se despoje desse seu orgulho maldito, você jamais entrará no céu”. Todos nós devemos nos despojar de nosso orgulho. Devemos nos humilhar e estar sobre uma base de igualdade diante dos olhos de Deus, e ver em cada homem um irmão, antes de poder esperar ser recebido na glória.

Bendizemos a Deus, e lhe damos graças porque não preparará mesas separadas para uns e para outros. O judeu e o gentio se sentarão juntos. O grande e o pequeno se alimentarão dos mesmos pastos, e “nos sentaremos com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus”.

Mas meu texto tem ainda uma doçura mais profunda, pois afirma que “muitos virão e se sentarão”. Alguns fanáticos de mente estreita pensam que o céu será um lugar muito pequeno, onde haverá pouquíssima gente que assistiu a sua capela ou a sua igreja. Eu confesso que não tenho nenhum desejo de um céu pequeno, e me dá muito gosto ler nas Escrituras que na casa de meu Pai há muitas mansões. Que freqüento escuto que o povo diz: “Ah, estreita é a porta e apertado o caminho, e poucos que são os que acertam com ele. Haverá poucas pessoas no céu; a maioria se perderá”. Meu amigo, eu não estou de acordo contigo. Acaso você crê que Cristo permitirá que o diabo ganhe dele? Que permitirá que o diabo tenha mais pessoas no inferno das que Ele tenha no céu? Não, isso é impossível. Pois então Satanás se riria de Cristo. Haverá mais pessoas no céu das que haverão entre os que se perdem. Deus disse: “Eis aqui uma grande multidão, da qual ninguém pode contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, que estavam diante do trono e na presença do Cordeiro;” mas Ele nunca disse que haverá uma multidão que ninguém pode contar que se perderá. Haverá hostes incontáveis que chegarão ao céu. Que boas notícias para você e para mim! Pois, se existem tantos que serão salvos, por que eu não haveria de ser salvo? Por que também aquele homem que está no meio da multidão, não pode dizer: “não poderia eu mesmo ser um desses da multidão?” E essa pobre mulher que está ali não poderia recobrar ânimo e dizer também: “Bom, se só se salvarão meia dúzia de pessoas, por que eu não haveria de ser salva?” Anime-se, você que está desconsolado! Alegre-se, filho da dor e da aflição, ainda há esperança para você!

Eu não posso crer que alguém esteja mais alem do alcance da graça de Deus. Haverá uns quantos que cometeram esse pecado que é para morte e Deus os abandonou; mas a vasta maioria da humanidade está ainda dentro do alcance da misericórdia soberana: “E muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão no reino dos céus”.

Olhem outra vez para meu texto, e vocês verão de onde vêm essas pessoas. Eles “virão do oriente e do ocidente”. Os judeus diziam que todos eles viriam da Palestina, cada um deles, cada homem, cada mulher e cada criança; que não haveria ninguém no céu que não fora judeu. E os fariseus pensavam que se todos eles não eram fariseus, não poderiam ser salvos. Mas Jesus Cristo disse que virão muitos do oriente e do ocidente. Haverá uma multidão daquela terra muito distante, China, pois Deus está fazendo uma obra grandiosa ali, e nós esperamos que o Evangelho seja vitorioso nessa terra. Haverá uma multidão dessa terra ocidental de Inglaterra; e também do pais ocidental que está alem do mar, de América; e do sul, da Austrália; e do norte, do Canadá, Sibéria e Rússia. Desde os confins da terra virão muitos que se sentarão no reino de Deus.

Mas eu creio que esse texto não deve ser entendido tanto no sentido geográfico somente, tanto como no sentido espiritual. Quando diz que “muitos virão do oriente e do ocidente”, eu penso que não se refere particularmente as nações, mas sim a diferentes tipos de pessoas. Agora, “o oriente e o ocidente” quer dizer aqueles que se encontram mais longe da religião; no entanto, muitos deles serão salvos e chegarão ao céu. Existe uma classe de pessoas que será considerada sempre como desajuizada. Muitas vezes escutei, seja de um homem ou de uma mulher, um comentário sobre essas pessoas, “ele não pode ser salvo: é demasiadamente desleixado. Para que ele presta? Pedi-lhe que vá a um lugar de adoração: ele estava bêbado na noite de sábado. De que serviria argumentar com ele? Não existe esperança para ele. É um tipo endurecido. Olhe para o que ele fez durante todos esses anos. De que serviria falar com ele?”.

Agora, escutem isso, vocês que pensam que seus companheiros são piores que vocês; que condenam aos outros quando vocês mesmo são tão culpados quanto eles: Jesus Cristo disse: “muitos virão do oriente e do ocidente”. Haverá muitos no céu que uma vez foram bêbados. Eu creio que, em meio desse multidão comprada com sangue, haverá muitos que se cambalearam entrando e saindo de uma taverna durante a metade de suas vidas. Mas pelo poder da graça divina eles foram capazes de lançar a copa de licor fora. Eles renunciaram ao desenfreio e a intoxicação – fugiram dela – e serviram a Deus. Sim! Haverá muitos no céu que foram beberrões na terra.

No céu haverá também muitas prostitutas: algumas das mais dissipadas serão achadas ali. Vocês recordam da história de Whitefield que uma vez disse que haverá pessoas no céu que foram “descartadas pelo diabo”; alguns que o diabo dificilmente pensaria que são bons o suficiente para ele, mas que Cristo salvará. Lady Huntingdon sugeriu-lhe uma vez com delicadeza que essa linguagem não era decorosa. Mas justo nesse momento se escutou a campainha e Whitefield desceu as escadas e se dirigiu a porta. Depois subiu e disse: “senhora, o que crê que acaba de me contar uma pobre mulher? Ela era uma triste perdida me disse ‘oh senhor Whitefield, quando você estava pregando nos disse que Cristo receberia os rejeitados do diabo e eu sou um deles.’”. E esse foi o instrumento de sua salvação.

Alguma vez alguém nos impedirá que preguemos aos mais baixos dos baixos? Fui acusado de reunir toda a plebe de Londres a meu redor. Deus abençoe a plebe! Deus salve a plebe! Logo eu digo: suponhamos que eles são “a ralé”! Quem poderia necessitar do Evangelho mais que eles? Quem requer que Cristo seja pregado mais do que a eles? Temos a muitos que pregam às damas e aos cavaleiros, mas precisamos que alguém pregue a ralé nesses dias degenerados.

Oh, aqui existe consolo para mim, pois muitos elementos do povo virão do oriente e do ocidente. Oh, que vocês pensariam se vissem a diferença que existe entre alguns que estão no céu e outros que estarão lá? Poderia ser encontrar alguém ali cujo cabelo estejam emaranhados e descabelado em sua testa e em seus olhos, seus olhos vermelhos saltando para fora e rindo como um idiota, que bebeu até consumir seu cérebro de tal forma que a vida parece ter partido no que concerne ao sentido e ao ser; no entanto eu lhe diria: “esse homem é suscetível de salvação”, e em um poucos anos eu poderia dizer “olhe para lá: vê aquela estrela brilhante? Reconhece aquele homem com uma coroa de ouro fino sobre sua cabeça? Nota aquele ser coberto com vestes de zafira e roupas de luz? Esse é aquele mesmo homem que se sentava ali como um pobre ser desviado, quase idiotizado; no entanto, a graça soberana e a misericórdia o salvaram!

Não existe nada exceto esses que eu mencionei antes, que cometeram o pecado imperdoável, que esteja alem da misericórdia de Deus. Tragam-me aos piores homens, e ainda assim eu pregarei para eles o Evangelho; tragam-me os mais vis, e eu lhes pregaria, porque recordo que o Senhor disse: “Vá pelos caminhos e pelos becos, e força-lhes a entrar, para que minha casa se encha”. “e os digo que virão muitos do oriente e do ocidente, e se sentarão com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus”.

Existe uma palavra mais que devo ressaltar antes de terminar com essa doce porção: essa é a palavra “irão vir (virão)”. Oh, eu amo os “eu farei” e, por consequência, os “eles farão”, de Deus! Não existe nada comparável a essas expressões. Se o homem diz: “Se fará”, que há com eles? “Eu vou a” diz um homem, porem, nunca o cumpre; “eu varei,” diz, mas quebra sua promessa. Porem não acontece o mesmo com os “eu farei” de Deus. Se Ele diz “será”, assim será; quando Ele diz “sucederá”, assim será. Agora Ele disse aqui “muitos virão, muitos irão vir”. O diabo diz “não virão”, mas “eles sim virão”. Seus pecados dizem: “vocês não podem vir”, mas Deus diz : “vocês irão vir”. Vocês mesmos dizem: “não viremos”; mas Deus diz “você virão”. Sim, existem algumas pessoas aqui que estão rindo da salvação, que se burlam de Cristo e ridicularizam o Evangelho; mas eu lhes digo que inclusive alguns de vocês virão!

“Como” – respondem – “pode Deus conduzir-me a ser cristão?” Lhes digo que sim, pois ali radica o poder do Evangelho. Ele não lhes pede seu consentimento; o consegue de fato. Ele não diz ‘quer recebê-lo?’ mas faz que vocês queiram no dia do poder de Deus. Não contra sua vontade, mas faz que vocês queiram. Ele mostra-lhes seu valor, e logo vocês se encantam dele, e correm diretamente atrás dele e o obtêm.

Muita gente disse: “não aceitamos nada que tenha que ver com a religião”, mas, no entanto, foram convertidas. Eu ouvi a história de um homem que uma vez foi a uma capela para escutar os hinos, e tão logo que o ministro começou a pregar, esse tipo tapou os ouvidos com seus dedos, para não escutar a pregação. Porem, logo depois, um pequeno inseto posou em sua face, pelo qual se viu obrigado a tirar o dedo com que tapava o ouvido, para espantar esse bicho. Nesse preciso momento o ministro disse: “O que tem ouvidos para ouvir, ouça”. O homem ouviu, e Deus se encontrou com ele nesse instante para conversão de sua alma. Saiu convertido em um novo homem, com um caráter transformado. Ele, que tinha vindo para se divertir, se retirou para orar; quem veio para passar uma hora no ócio, regressou para casa para passar uma hora em devoção com seu Deus. O pecador se converteu num santo; o libertino se converteu em um penitente. Quem sabe se não haverá alguém assim aqui, essa noite. O Evangelho não precisa de seu consentimento, ele o obtêm. Tira a inimizade de seu coração. Vocês dizem: “não quero ser salvo”; Cristo diz que serão salvos. Ele faz que sua vontade de um giro total, e em consequência você clama: “Senhor, salva-me, que eu pereço!” Ah, então o céu exclama: “Eu sabia que faria que dissera isso”; e então, Ele se regozija por sua causa, porque mudou sua vontade e o conduziu a querer no dia de Seu poder.

Se Jesus Cristo subisse a essa plataforma essa tarde, o que muita gente faria com ele? “Oh”, alguém dirá, “o faríamos Rei”. Não creio nisso. O crucificariam de novo se tivessem a oportunidade. Se Ele viesse e dissesse: “aqui estou, e os amo, querem que Eu os salve?”. Nenhum de vocês daria seu consentimento se fossem deixados à sua vontade. Se Ele os olhasse com esses olhos ante cujo poder o leão teria se encolhido; se Ele falasse com essa voz que derramou cataratas de eloquência como um rio de néctar vertido desde os penhascos, nem uma só pessoa viria para ser Seu discípulo; não, o poder do Espírito para fazer com que os homens venham a Cristo é necessário. Ele mesmo disse: “Nenhum pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer”. Ah! Precisamos disso; e aqui o temos.

Eles virão! Eles virão! Vocês poderiam rir disso, poderão desprezar-nos; mas Jesus Cristo não morrerá em vão. Se alguns de vocês o rejeitam, haverá outros que não o rejeitarão. Se existem alguns que não são salvos, outros o serão. Cristo verá sua linhagem, viverá por largos dias, e a vontade do SENHOR prosperará em Sua mão. Alguns crêem que Cristo morreu, mas que algumas das pessoas pelas quais morreu, se perderão. E jamais poderia entender essa doutrina. Se Jesus, minha garantia, levou minhas dores e carregou com minhas aflições, eu me considero tão seguro como os anjos no céu. Deus não pode pedir o pagamento duas vezes. Se Cristo pagou minha dívida, terei que pagá-la outra vez? Não –

“Livre do pecado eu caminho em liberdade,
O sangue do Salvador é minha completa absolvição;
Estou contente em Seus amados pés,
Sou um pecador salvo, e o louvo rindo”

Virão! Virão! E nada no céu, nem na terra, nem no inferno, pode impedir que venham.

E agora, você que é o primeiro dos pecadores, escute por um instante enquanto lhe chamo para que venha a Jesus. Existe uma pessoa aqui essa noite, que se considera a pior alma que jamais tenha vivido. Existe alguém que se diz a si mesmo, “eu estou certo que não mereço ser chamado para vir a Cristo!” Alma, eu a chamo! Você que é o mais miserável perdido, essa noite, pela autoridade que Deus me deu, lhe exorto que venhas a meu Salvador.

Faz algum tempo, quando fui à corte de um condado, para ver o que faziam, ouvi que chamavam alguém por seu nome, e imediatamente o homem respondeu “abram espaço, abram espaço, estão me chamando”, e se aproximou com prontidão. Agora, essa tarde, eu chamo ao principal dos pecadores, e lhe peço que diga: “me dêem licença, apartem-se dúvidas! Saiam temores! Fora, pecados! Cristo me chama! E se Cristo me chama, isso é o suficiente!” –

“Eu me aproximo a Seus pés cheios de graça,
Cujo cetro oferece misericórdia;
Talvez Ele me ordenasse que O toque!
E então o suplicante viverá.

Eu poderia perecer se vou;
Mas estou resolvido a tentar;
Pois se fico longe, eu sei
Que devo morrer para sempre.

Porém, se morro com a misericórdia buscada,
Tendo provado ao Rei
Isso seria morrer (deleitável pensamento!)
Como um pecador jamais morreu!”

Venha e prove a meu Salvador! Vem e prova meu Salvador! Se te deica fora depois que O tenha buscado, divulgue no Abismo que Cristo não quis lhe escutar! Porem, a você jamais será permitido fazer isso. Seria uma desonra para a misericórdia do pacto, que Deus deixe fora a um pecador penitente; e nunca ocorrerá isso enquanto esteja escrito: “e os digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e se sentarão com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus”.

II. Na segunda parte, meu texto é penetrante, eu prego com grande deleite sobre a primeira parte, mas aqui existe uma triste tarefa para minha alma, porque encontramos palavras tenebrosas. No entanto, como lhes disse, o que está escrito na Bíblia deve ser pregado, seja tenebroso ou alegre. Existem alguns ministros que nunca mencionam nada sobre o inferno. Escutei de um ministro que uma vez disse para sua congregação: “Se vocês não amam ao Senhor Jesus Cristo, vocês serão enviados a esse lugar cujo nome não é cortês se mencionar”. A esse ministro não se lhe devia permitir que pregasse novamente, se era incapaz de usar palavras claras. Agora, se eu vejo que aquela casa está pegando fogo, vocês acreditam que eu ficaria imóvel dizendo: “eu acho que ali está se desenvolvendo uma combustão”. Não, eu gritaria: “Fogo! Fogo!” e então todo mundo entenderia o que estou dizendo.

Assim, se a Bíblia disse: “os filhos do reino serão lançados às trevas exteriores”, devo me apresentar aqui e expor as coisas favoravelmente? Deus não queira! Devemos dizer a verdade, tal como ela está escrita. É uma terrível verdade, pois diz: “e os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores” Agora, quem são esses filhos? Direi-lhes. “Os filhos do reino” são essas pessoas que se fazem notar por suas amostras externas de piedade, mas que não possuem suas características interiores. Pessoas que vocês verão marchando para a capela, tão religiosamente como é possível, com suas Bíblias e seus hinários, ou indo a igreja, tão devotas e modestamente como poder, mostrando-se tão sóbrias e sérias como sacristãos paroquiais, imaginando-se que estão seguros de serem salvos, ainda que os corações deles não estão ali de fato, alem de somente seus corpos. Essas são as pessoas que são “os filhos do reino”. Não possuem graça, nem vida, nem a Cristo, e serão lançados às trevas exteriores.

Ademais, essas pessoas são filhas de pais e mãe piedosas. Não existe nada que comova tanto o coração de um homem, notem bem, como falar sobre sua mãe. Eu ouvi a história de um marinheiro blasfemo, que ninguém podia controlar, nem sequer a polícia, que por onde passava distúrbios. Uma vez, ele foi a um lugar de adoração, e ninguém podia mantê-lo quieto; porem, um cavaleiro se aproximou e disse: “João, você teve uma mãe uma vez”. Com isso, as lágrimas rolaram por sua face. Ele disse: “Sim, já!” “bendito sejas amigo, é certo que a teve,” e o perturbador disse: “e eu levei com dor seus cabelos grisalhos à tumba, e sou um descarado ao estar aqui essa noite”. E logo, se assentou, muito quieto e submisso pela simples menção de sua mãe.

Ah, e existem alguns de vocês, “filhos do reino”, que podem se lembrar de suas mães. Sua mãe o sentou em seus joelhos e lhe ensinou logo cedo a orar: seu pai o instruiu nos caminhos da piedade. E, no entanto, você está aqui essa noite sem graça em seu coração: sem a esperança do céu. Está descendendo até o inferno tão rápido como seus pés lhe permitem. Existem alguns de vocês que quebrantaram o coração de sua pobre mãe. Oh, se pudesse lhes dizer o que ela sofreu por vocês enquanto vocês estão entregando-se ao pecado durante a noite. Se dão conta de qual era sua culpa, “filhos do reino”, depois que as orações e as lágrimas de uma mãe piedosa caíram sobre vocês? Não posso conceber que ninguém entre ao inferno com uma pior graça que o homem que vai para lá com as gotas de lágrimas de sua mãe sobre sua cabeça, e com as orações de seu pai seguindo seus calcanhares.

Alguns de vocês suportariam inevitavelmente essa condenação; alguns jovens e mulheres de despertarão um dia e se encontrarão nas trevas exteriores, enquanto seus pais estarão acima no céu, olhando até abaixo com olhos de reprovação, como que querendo dizer: “Como! Depois de tudo o que fizemos por você, tudo o que lhe dissemos, você chegou a isso?” “Filhos do reino!” não creiam que uma mãe piedosa possa salvá-los. Não pensem que porque seu pai foi um membro de tal e tal igreja, sua piedade os salvará. Posso supor a alguém parado à porta do céu rogando, “deixem-me entrar! Deixem-me entrar!” “Por que?” perguntam. “Porque minha mãe está ali dentro”. Sua mãe não teve nada que ver contigo. Se foi santa, foi santa para ela; se foi perversa, foi perversa para ela. “Mas meu avô orou por mim”. Isso não lhe serve para nada agora. Você orou por você mesmo? “Não, não orei”. Então as orações do avô e da avó, e as orações do pai e da mãe, podem amontoar-se umas sobre as outras até que alcancem as estrelas, mas nunca poderão formar uma escada que você possa usar para subir ao céu. Deve buscar a Deus por ti mesmo; ou melhor, Deus deve buscar-lhe. Você deve ter uma experiência vital de piedade em seu coração, pois do contrário está perdido, ainda que todos seus amigos estejam no céu.

Uma mãe piedosa sonhou um sonho terrível e o contou a seus filhos. Ela pensou que o dia do juízo tinha chegado. Os grandes livros foram abertos. Todos eles estavam diante de Deus. E Jesus Cristo disse: “Separem a palha do trigo; coloquem os cabritos à esquerda e as ovelhas à direita da grande assembleia. E o anjo veio, e disse: “tenho que levar a mãe: ela é uma ovelha, ela deve ir para direita. Os filhos são cabritos, e eles devem ir para esquerda”. Ela sonhou que ao retirar-se, seus filhos a agarravam e lhe diziam: “Mãe, por acaso podemos nos separar? Devemos estar separados?”. Então, ela os abraçou enquanto lhes dizia: “meus filhos, se fosse possível, eu os levaria comigo”. Porem, em um instante o anjo a tocou: suas faces estava secas, e agora, sobrepondo-se ao afeto natural, sendo transformada em um ser sobrenatural e sublime, rendida à vontade de Deus, ela disse: “meus filhos, eu lhes ensinei bem, eu os eduquei, e vocês abandonaram os caminhos de Deus, e agora tudo o que tenho que dizer é amem a sua condenação”. Então, nesse momento, eles foram arrebatados longe, e ela os viu em tormento perpétuo, enquanto ascendia ao céu.

Jovem, o que você pensaria quando o ultimo dia venha, e escute que Cristo diz: “Aparte-se de mim, maldito!”? E haverá uma voz justamente atrás Dele, dizendo, amem. E quando investigue de onde procede essa voz, descubra que foi a voz de sua própria mamãe nesse “amem”? Ou também, moça, quando sejas lançada nas trevas externas, o que pensaria ao ouvir uma voz dizendo “Amém”, e quando olhe, veja ali sentado a seu papai, e seus lábios ainda se agitam com a solene maldição. “Ah, filhos do reino,” os réprobos penitentes entrarão no céu, muitos deles; publicanos e pecadores chegarão ali; bêbados arrependidos e blasfemos serão salvos, mas muitos dos filhos do reino serão deixados às trevas exteriores.

Oh, pensar que você que foi educado tão bem, se perda, enquanto que muitas das piores pessoas serão salvas. Será o inferno do inferno para você quando eleve o olhar e veja ali “ao pobre João,” o bêbado, reclinado no peito de Abraão, enquanto você que teve uma mãe piedosa é lançado ao inferno, simplesmente porque não creu no Senhor Jesus Cristo; apartou de você mesmo o Evangelho, e viveu e morreu sem ele! Isso será o pior aguilhão de todos, se ver a si mesmo lançado fora nas trevas, quando o principal dos pecadores encontra a salvação!

Agora, escutem-me um momento – não os deterei por largo tempo – enquanto assumo a triste tarefa de dizer-lhes o que é que acontecerá a esses “filhos do reino”. Jesus Cristo diz que eles “serão lançados nas trevas exteriores, e ali haverá choro e ranger de dentes”.

Primeiro, observem, eles serão lançados. Não diz que vão ir, mas quando cheguem aas portas do céu serão lançados. Tão logo como o hipócrita suba as portas do céu, a Justiça dirá: “lá vem, lá vem! Menosprezou as orações de um pai, se burlou das lágrimas de uma mãe. Ele forçou seu caminho de caída contra todas as vantagens que a misericórdia lhe proveu. E agora vem. Gabriel, agarre esse homem”. Então, o anjo, os prendendo pelos pés e mãos, o pende por um instante sobre as boas do abismo. Ele o ordena que olhe para baixo, para baixo, para baixo. Não existe fundo: e você ouve umas palavras que se elevam desde esse abismo: “gemidos, queixas profundas, e alaridos de espíritos torturados”. Você estremece, seus ossos se derretem como cera, e sua medula se abala dentro de você. Onde está agora seu poder, e, onde está sua jactância e fanfarronice? Dá um alarido e choras, e pede misericórdia; mas o anjo, com seu tremendo punho, o sustenta firme, e logo lhe lançar ao abismo, com o grito: “longe, longe!” e você caia ao buraco que não tem fundo, e se desce para sempre para baixo, sem achar jamais um lugar de descanso para planta de seus pés. Será lançado fora.

E, onde será lançado? Deve ser lançado “nas trevas exteriores;” ser colocado no lugar onde não haverá esperança. Pois, por “luz”, nas Escrituras, nós entendemos “esperança”; e você será lançado “às trevas exteriores, onde não existe luz: não existe esperança. Existe algum homem aqui que não tenha esperança? Não posso imaginar a uma pessoa assim. Talvez, algum de vocês diga: “Tenho uma dívida de trinta libras esterlinas, e logo serei vendido; mas tenho a esperança de obter um empréstimo, e assim poderei escapar de minha dificuldade”.

Outro diz: “Meu negócio está na ruína, mas as coisas ainda podem mudar: tenho a esperança”. Outro diz: “Eu estou submerso na angustia, mas espero que Deus me dê a provisão”. Outro diz: “eu devo cinquenta libras esterlinas; eu; eu sinto muito, porem, irei colocar minhas fortes mãos a trabalhar e vou fazer um grande esforço para sair do problema”. Alguém pensa que seu amigo está morrendo – mas tem a esperança que talvez a febre regresse: espera que possa viver. Mas no inferno não existe esperança. Nem mesmo a esperança de morrer: a esperança de ser aniquilados. Eles estão perdidos para sempre, para sempre, para sempre! Em cada cadeia do inferno está escrito: “para sempre”. Nos fogos, ali, sobressaem as palavras: “para sempre”. Acima de suas cabeças, eles lêem: “para sempre”. Seus olhos estão amargurados e seus corações estão doloridos pelo pensamento de que é para sempre. Oh, se eu pudesse dizer-lhes nessa noite que o inferno irá desaparecer queimado um dia, e que os que estavam perdidos poderiam ser salvos, haveria um jubilo no inferno motivado pelo simples pensamento desses. Porem, não pode ser: é “para sempre” que “são lançados nas trevas exteriores”.

Mas eu gostaria de terminar co isso tão logo quanto possa, pois, quem pode suportar falar dessa forma a seus companheiros? O que é que os perdidos estão fazendo? Estão “chorando e rangendo seus dentes”. Você agora range os dentes? Não faria isso a menos que sentisse dor e estivesse agonia. Bem, no inferno sempre existe um ranger de dentes. E, sabe por quê? Há um que range seus dentes para seu companheiro e murmura: “eu fui conduzido ao inferno por vocês, você me levou a extraviar, você me ensinou a beber pela primeira vez”. E outro range os seus dentes também e lhe responde: “E daí se o fiz, você me fez mais mal do que eu teria sido”.

Existe ai uma criança e olha para sua mãe e diz para ela: “Mãe, você me treinou no vício”. E a mãe range os dentre de volta ao menino, e lhe responde: “não sinto piedade por você, pois você me superou no vício e me conduziu ao profundo do pecado”. Os pais rangem seus dentes para seus filhos, e os filhos aos pais. E me parece que se existe alguns que terão que ranger os dentes mais que outros, serão os sedutores, quando vejam àqueles que desviaram dos caminhos de virtude, e os ouçam dizer: “ah, nos dá gosto que você esteja no inferno conosco, você merece, pois você nos trouxe aqui”.

Algum de vocês tem sobre sua consciência no dia de hoje o fato de que conduziu a outros ao abismo? Oh, que a graça soberana o perdoe. “eu andei errante como ovelha extraviada”, Davi disse. Agora, uma ovelha extraviada jamais se extravia sozinha se pertence ao rebanho. Recentemente li sobre uma ovelha que saltou sobre a varanda de uma ponte, e cada uma das ovelhas do rebanho a seguiu. Assim, se um home se desvia, conduz a outros ao desvio com ele. Alguns de vocês terão que prestar contas pelos pecados de outros quando cheguem ao inferno, assim como pelos seus próprios pecados. Oh, que “choro e ranger de dentes” haverá nesse abismo!

Agora encerro o livro negro. Quem quer dizer algo mais sobre ele? Eu lhes adverti solenemente. Falei para vocês da ira vindoura! A tarde cai, e o sol está se pondo. Ah, e as tardes enegrece para alguns de vocês. Vejo aqui a homens de cabelos grisalhos. Por acaso são seus cabelos grisalhos uma coroa de glória ou um gorro de um insensato? Vocês estão na própria borda do céu, ou estão cambaleando a beira da sua tumba, e afundando-se para perdição?

Permitam-me adverti-lhes, homens de cabelos grisalhos; seu entardecer se aproxima. Oh, pobre homem de cabelos brancos que vacila, você dará seu ultimo passo para o abismo? Deixe que um pequeno menino se interponha na sua frente e lhe suplique que reconsidere. Ali está seu cajado: não tem mais nenhum pedaço de terra sobre o qual descansar; e agora, antes que morra, recapitule essa noite – deixe que se levantem precipitadamente setenta anos de pecado; deixe que os fantasmas de suas esquecidas transgressões marchem sobre seus olhos. O que você fará com setenta anos desperdiçados pelos quais tem que responder, com setenta anos de crimes que irá trazer diante de Deus? Que Deus lhe dê nessa tarde graça para que se arrependa e que coloque sua confiança em Jesus.

E vocês, homens de meia idade, não estejam tão seguros: a tarde cai para vocês também; podem morrer logo. Faz uns quantos dias, fui levantado cedo de minha cama por conta de um pedido para que me apressasse a visitar um moribundo – porem, quando cheguei à casa, ele já estava morto: era um cadáver. Enquanto estava naquela casa, pensei: “ah, esse homem não tinha a menor ideia de que morreria tão rápido”. Ali estavam sua esposa e seus filhos e amigos; não pensaram que ia morrer, pois era um homem sadio, robusto, vigoroso somente há alguns dias atrás.

Nenhum de você tem uma apólice de seguro de sua vida. Se o tem, onde está? Vão e vejam se a possuem escondida nos baús de sua casa. Não! Vocês podem morrer amanhã. Portanto, permitam-me advertir-lhes pela misericórdia de Deus – deixem-me lhes falar como um irmão falaria com vocês; pois eu os amo, e vocês sabem que é assim, e eu gostaria que gravassem isso em seus corações. Oh, estar entre as muitas pessoas que serão aceitas em Cristo: que benção será! E Deus disse que todo aquele que invoque Seu nome será salvo: não rejeita a ninguém que venha a Ele por meio de Cristo.

E agora, moços e moças, uma palavra para vocês. Talvez pensem que a religião não é para vocês. “Sejamos felizes” dizem: “estejamos alegres e cheios de gozo”. Por quanto tempo, rapaz, por quanto tempo? “Até que eu cumprir vinte e um anos”. Você está seguro de que alcançará essa idade? Deixe-me dizer-lhe uma coisa. Se de fato você vive até essa data, e mesmo assim não tem um coração para Deus, tampouco terá um quando chegue nessa idade. Se os homens são deixados por si mesmos, não se fazem melhores. Sucede com eles o mesmo que acontece com um jardim; se o abandona e permite que cresça ervas daninhas nele, não espere encontrá-lo em melhor estado seis meses depois: estará pior! Ah, os homens falam como se pudessem se arrepender quando queiram. É obra de Deus nos dar arrependimento. Alguns, inclusive, chegam a dizer: “irei me voltar a Deus tal e tal dia”. Ah, se sentisse de maneira correta diria: “devo correr a Deus, e pedir-lhe que me dê o arrependimento agora, para que não morra antes de ter encontrado a Jesus Cristo meu Salvador”.

E agora, uma palavra para concluir essa mensagem. Falei-lhes do céu e do inferno, qual é o caminho, então, para escapar do inferno e para ser encontrado no céu? Não lhes irei repetir meu velho conto essa noite. Eu lembro quando os contei anteriormente, um bom amigo que se encontrava entre a multidão me disse: “Nos dê algo que seja fresco, velho amigo”. Agora, realmente quando se prega dez vezes pela semana, nem sempre podemos dizer coisas frescas. Já ouviram falar de John Gough, e você sabem que ele repete suas histórias uma e outra vez. Eu não tenho nada senão o velho Evangelho. “o que crer e for batizado, será salvo”. Aqui não existe nenhuma referência a obras. Não diz: “Aquele que seja um bom homem será salvo”. Bem, que significa crer? Significa colocar inteiramente sua confiança em Jesus. O pobre Pedro uma vez creu, e Jesus lhe disse: “Vamos Pedro, caminhe até mim sobre a água”. Pedro foi, pisando as cristas das ondas, sem afundar; mas quando olhou as ondas, começou a temer, e se afundou.

Agora, pobre pecador, Cristo lhe diz: “Vamos, caminha sobre seus pecados; venha a Mim”; e se você faz isso, Ele lhe dará poder. Se você crê em Cristo, será capaz de caminhas sobre seus pecados, pisar sobre eles. E vencê-los. Eu posso recordar aquele tempo quando meus pecados me olharam pela primeira vez em minha cara. Eu me considerei o mais execrável de todos os homens. Eu não havia cometido grandes transgressões visíveis contra Deus; mas tinha presente que tinha sido educado e guiado muito bem, e por isso pensava que meus pecados eram piores que os de outras pessoas. Clamei a Deus por misericórdia, mas Ele não me ouviu, e eu não sabia o que era ser salvo. Algumas vezes estava tão cansado do mundo que desejava morrer: mas então me lembrava que existia um mundo pior depois desse, e que não seria bom me apressar em me apresentar diante de meu Senhor sem estar preparado. Às vezes, pensava perversamente que Deus era um tirano sem coração, porque não respondia minha oração; e logo, outras vezes, pensava: “eu mereço Seu desgosto; se Ele me envia ao inferno será justo”. Porem, recordo que a hora quando entrei a um lugar de adoração, e vi a um homem alto e delgado subir ao púlpito: nunca voltei a lhe ver depois desse dia, e provavelmente nunca o veja novamente, até que nos encontremos no céu. Abriu a Bíblia, e leu, com uma voz frágil: “Olhai para mim, e sereis salvos, todos os términos da terra, porque eu sou Deus, e não há outro”. Ah, eu pensei, eu sou um dos términos da terra, e então, voltando-me, e fixando seu olhar em mim, como se ele me conhecesse, esse ministro disse: “olhe, olhe, olhe”. Vamos, eu pensava que havia muitas coisas que eu deveria fazer, mas descobri que só tinha que olhar. Eu pensava que eu mesmo tinha que tecer um vestido: porem, descobri que seu olhava, Cristo me daria um vestido.

Olhe, pecador, isso é ser salvo. Olhe para Ele, todos os términos da terra, e sejam salvos. Isso é o que os judeus fizeram, quando Moisés levantou a serpente de bronze. Ele disse: “olhem”, e eles olharam. As serpentes andavam a seu redor, e eles chegavam quase mortos; mas simplesmente olhavam, e no momento que olhavam, as serpentes cairam fulminadas, e eles eram sarados. Olhe para Jesus, pecador. “Ninguém exceto Jesus pode fazer bem aos pecadores desvalidos”. Existe um hino que cantamos sempre, mas que não é muito correto, que diz –

“Aventure-se Nele, aventure-se inteiramente;
Não deixes que nenhuma outra confiança se intrometa”.

Agora, não é uma especulação confiar em Cristo. O que confia em Cristo está muito seguro. Eu recordo que quando o querido John Hyatt estava morrendo, Matthew Wilks lhe disse: “E bem, John, pode confiar agora sua alma nas mãos de Jesus Cristo?” “Sim,” respondeu “um milhão, um milhão!” estou certo que cada cristão que tenha confiado em Cristo pode dizer: “amem” a isso. Confia nele, nunca irá se enganar. Meu bendito Senhor nunca lhe lançará fora.

Devo terminar minha mensagem, e só me resta agradecer-lhes sua amabilidade. Nunca vi a tantas pessoas reunidas, que estejam tão tranqüilas e tão quietas. Realmente penso, depois de todas as duras coisas que se disseram, que os ingleses sabem que os ama, e que eles estarão com o homem que esteja com eles. Dou graças a cada um de vocês, e sobre todas as coisas, lhes suplico, se existe razão ou sentido no que eu disse, reflitam sobre o que são, e que o bendito Espírito lhes revele sua verdadeira situação! Que lhes mostre que estão mortos, que estão perdidos, arruinados. Que lhes faça sentir que coisa tão terrível seria se afundar no inferno! Que lhes assinale o caminho ao céu! Que os tome, dizendo: “Fuja! Fuja! Fuja! Olhe para o monte; não olhe para trás de ti, não pare em toda a planície. “e que todos nos reunamos ao fim no céu; e ali seremos felizes para sempre.

 

Um comentário de Spurgeon: Esse sermão foi regado com muitas orações dos fiéis de Sião. O pregador não pretendia que fosse publicado, mas agora vendo que o imprimiram, não se desculpará pela sua composição defeituosa nem pelo estilo difuso; em vê disso, o pregador suplica as orações de seus leitores, para que esse débil sermão possa exaltar a honra de Deus, pela salvação de muitas pessoas que o leiam “a excelência do poder é de Deus, não do homem”.

 

Charles Haddon Spurgeon — Sermão pregado na noite de terça-feira, 4 de Setembro de 1855 ao ar livre em King Edward’s Road, Hackney | Orginal “HEAVEN AND HELL”, “The New Park Street Pulpit” | Projeto Spurgeon – Proclamando a CRISTO crucificado.