Falta de Saúde e Curas Físicas

Falta de saúde tem sido uma realidade de vida desde a Queda. Não houvesse entrado o pecado, não haveria a doença. Como as coisas estão, ambos são universais, esta última sendo resultado do primeiro. Isso a Escritura dá a entender. Os cristãos de ontem também viam o assunto desta maneira. Não achavam que a má saúde e os desconfortos crônicos fossem obstáculo à fé na bondade de Deus. Ao contrário, esperavam a doença e a aceitavam sem reclamações, aguardando a saúde do céu.

Mas hoje, ofuscado pelas maravilhas da medicina moderna, o mundo sonha em abolir inteiramente a má saúde. Tornamo-nos tão conscientes da saúde, que isso em si é um tanto doentio e certamente sem precedente algum – nem mesmo na antiga Esparta, onde a educação física era tudo.

Por que fazemos dietas, e corremos, e buscamos elevar nosso nível de saúde, e nos dedicamos tão apaixonadamente às coisas que mantêm a saúde? Por que estamos tão preocupados com a saúde física? Estamos perseguindo um sonho, o sonho de nunca ficar doente. Estamos chegando ao ponto de considerar uma existência livre de dor e deficiências como um dos direitos naturais do homem.

Não admira que os cristãos de hoje estejam tão interessados em cura divina. Anseiam pelo toque de Deus, tão direto e poderoso quanto possível, na sua vida (e devem mesmo almejá-lo). Estão preocupados com a saúde física, à qual acham que têm direito — “Quanto de mundanismo existe nessa preocupação?” — É uma pergunta que vale a pena ser feita, mas não é a que vamos considerar aqui. Com essas duas preocupações dominando as mentes, não surpreende que muitos estejam assegurando que todos os crentes doentes poderão achar cura física por meio da fé, ou de médicos, ou sem eles. Um cético diria que o desejo foi o pai do pensamento.

Mas isso é justo? Foi natural essa idéia surgir em nossa época, mas isso não a faz nem verdadeira nem falsa. De tempos em tempos ela se apresenta como uma descoberta daquilo que a igreja um dia conheceu, e que nunca deveria ter esquecido, sobre o poder que a fé possui para canalizar o poder de Cristo. A idéia reivindica ser bíblica, e precisamos levar a sério essa reivindicação. Para se apoiar na Escritura, o ensino usa três argumentos.

  • Primeiro, Jesus Cristo, que curou tão abundantemente quando estava na terra, não mudou. Ele não perdeu seu poder. O que ele fez naquele tempo pode fazer agora;
  • Segundo, a salvação na Escritura é uma realidade completa, abarcando tanto alma como corpo. Não são bíblicas as idéias de salvação para a alma só, fora ou à parte do corpo;
  • Terceiro, perde-se a bênção onde falta a fé e onde os dons divinos não são procurados. “Nada tendes, porque não pedis”, diz Tiago. “Pedi e dar-se-vos-á”, disse Jesus. Mas Mateus nos diz que em Nazaré, onde Jesus fora criado, o Mestre não pôde fazer muitos milagres, por causa da incredulidade deles.

Tudo isso é verdade. Então, Jesus ainda cura milagrosamente? Sim, eu acho que em certas ocasiões ele cura. Não nego que os milagres de curas existam hoje. Há muitas provas contemporâneas de curas que vêm acontecendo em contextos de fé, as quais os médicos não sabem explicar. Benjamin Breckinridge Warfield, cuja esposa era uma inválida durante todo o seu casamento, negava mal-humoradamente que Deus estivesse operando qualquer cura sobrenatural no dia de hoje. Mas parece que Warfield estava enganado.

Entretanto, o que muitas vezes se alega é que a cura por meio de oração, somada, talvez, às atenções ministradas por alguém com dom de curar, estão sempre disponíveis a crentes doentes, e que se os cristãos inválidos não encontram a cura, “algo está faltando na sua fé”. É logo aí que eu faço objeção. A lógica está errada – cruel e destrutivamente errada – como atesta qualquer pessoa que já buscou cura milagrosa nessa base e não a encontrou, ou como conhece de sobra qualquer pessoa que já foi chamada para apanhar os pedaços na vida de outros que têm tido essa espécie de experiência.

Alguém vir-lhe dizer que uma cura há muito desejada foi negada por causa de alguma falha na sua fé, quando você já tinha feito o maior esforço e se estendido até onde sabia para se dedicar a Deus e “crer para a bênção”, é você ser lançado na aflição, no desespero, e sentir-se abandonado por Deus. É uma angústia tão amarga como qualquer que se imagina para cá do inferno – particularmente se, como a maioria dos inválidos, sua sensibilidade já está em alta e seu humor em baixa. Nem a Escritura permite que nós despedacemos alguém com palavras dessa forma.

E aqueles três argumentos? Olhe-os de novo. Algo mais deve ser dito sobre cada um deles.

É verdade que o poder de Cristo ainda é o que foi. Contudo, as curas que ele realizava quando estava na terra tinham uma significação especial. Além de serem obras de misericórdia, eram sinais de sua identidade messiânica. Isso aparece na mensagem que ele enviou a João Batista: “Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo… Bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mt 11.4, 6). Em outras palavras, Jesus estava dizendo: “Deixe João conferir meus milagres com aquilo que Deus prometeu para o dia da salvação” – veja Isaías 35.5ss. Assim ele não deverá ter dúvida nenhuma quanto a eu ser o Messias, seja o que for sobre mim que ele ainda não entenda.

Qualquer pessoa hoje que peça milagres como apoio à fé deverá ser encaminhada a esse texto em Mateus e ouvir que se ele não crer em face dos milagres registrados nos Evangelhos, ele não haveria de crer ainda que visse um milagre no fundo do seu próprio quintal. Os milagres de Jesus são prova decisiva para sempre de quem ele é e de que poder ele tem.

Mas o caso é que as curas sobrenaturais tão abundantes como aquelas operadas nos dias em que Jesus estava na carne poderão não ser de sua vontade hoje. A questão não é seu poder e sim seu propósito. Não podemos garantir, por ele ter curado os enfermos que lhe eram trazidos, que ele fará o mesmo agora.

Também é verdade que a salvação inclui o corpo e a alma. E existe mesmo, como alguns o expressam, cura para o corpo na expiação. Mas não se promete saúde física perfeita, para essa vida. Promete-se para o céu, como parte da glória da ressurreição que nos aguarda no dia em que Cristo “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (Fp 3.21). Bem-estar físico total é apresentado como uma bênção futura da salvação em vez de presente. O que Deus prometeu, e quando Ele o vai conceder, são perguntas distintas.

A esposa de um amigo pastor teve um “bebê-milagre” depois que os médicos lhe haviam dito que era impossível uma gravidez. Mas a criança era malformada e morreu dentro de uma semana. Ao pregar no domingo seguinte, meu amigo aplicou a esta perda a verdade que a morte de Cristo assegurou a cura do corpo. “Deus curou Joy Anne”, ele disse, “levando-a para o céu”. Exatamente.

Prosseguindo, é verdade que a bênção falta onde falta fé. Mas mesmo na época do Novo Testamento, entre os líderes que não podem ser acusados de falta de fé, a cura não era universal. Sabemos por Atos que o apóstolo Paulo por vezes foi agente de Cristo em curas miraculosas, e que ele mesmo foi uma vez miraculosamente curado de mordida de serpente. Contudo ele aconselha a Timóteo a usar “um pouco de vinho por causa do teu estômago e das tuas freqüentes enfermidades” (1 Tm 5.23) e lhe informa que deixou “Trófimo doente em Mileto” (2 Tm 4.20). Também conta aos filipenses que o mensageiro deles, Epafrodito, estava tão doente que “por causa da obra de Cristo, chegou ele às portas da morte”, e falou da tristeza que ele, Paulo, tinha sentido ao pensar em perdê-lo (Fp 2.25-30). É claro que, se Paulo, ou qualquer outro, tivesse buscado poder para curar esses casos miraculosamente, ter-se-ia desapontado.

Ainda mais, o próprio Paulo vivia com um “espinho na carne” que não foi curado. Em 2 Coríntios 12.7-9, ele nos conta que em três solenes ocasiões de oração ele havia pedido a Cristo, o Senhor e Curador, que tirasse “o espinho” dele. Mas a esperada cura não ocorreu. O texto merece exame atencioso.

Espinho representa um foco de origem da dor, e carne o localiza no sistema físico ou psicológico de Paulo, assim excluindo a idéia sugerida por alguns de que ele se estivesse referindo a um colega difícil. Porém, mais do que isso Paulo não especifica, e provavelmente de propósito. As suposições vão desde doenças doloridas repetitivas tais como inflamação nos olhos (ver Gl 4.13-15), enxaqueca, ou malária, até a tentação crônica. A primeira idéia parece a mais natural, mas ninguém pode ter certeza. Só podemos dizer que era uma incapacidade aflitiva da qual Paulo poderia ter sido livrado na hora se Cristo quisesse.

Então Paulo viveu com dor. E o espinho, dado a ele sob providência de Deus, funcionou como “mensageiro de Satanás, para me esbofetear” (2 Co 12.7) porque o tentava a pensar idéias duras sobre Deus lhe permitir sofrer e até reduzir seu ministério, o que lhe causava ressentimento. Como é que se poderia esperar que ele continuasse viajando, pregando, trabalhando noite e dia, orando, importando-se, chorando sobre as pessoas com essa dor constante abatendo-o? Tais pensamentos eram “dardos inflamados do Maligno” (Ef 6.16) contra os quais ele teve de lutar constantemente, porque o espinho permaneceu sem cura.

Alguns cristãos de hoje vivem com epilepsia, os desejos mórbidos homossexuais, as úlceras, e depressões cíclicas que os mergulham em águas profundas semelhantes. Certamente Philip Hughes teve razão quando escreveu, comentando este texto:

“Será que existe um só servo de Cristo que não possa apontar para algum ‘espinho na carne’, visível ou não, físico ou psicológico, do qual orou para que fosse libertado, mas que lhe foi dado por Deus para conservá-lo humilde, e assim, frutuoso? … ‘O espinho na carne’ de Paulo tipifica, pelo própria falta de definição, o tipo do ‘espinho na carne’ de todo cristão”.

Paulo percebia, entretanto, que o espinho lhe fora dado, não por castigo, mas para proteção. A fraqueza física o protegia contra a doença espiritual. Os piores males são os do espírito: orgulho, vaidade, arrogância, amargura, egoísmo. Causam muito mais estragos do que o mal físico. Em 2 Coríntios 12, Paulo descreveu o espinho como uma espécie de profilático contra o orgulho ao de dizer que era “para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações” (7). Vendo assim, ele pôde aceitá-lo como providência sábia da parte do seu Senhor. Não foi por falta de oração que o espinho continuava sem cura. Paulo explicou aos coríntios qual foi a resposta de Cristo à sua oração a respeito: “Ele me disse: ‘A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza'” (9). Era como se o Salvador lhe estivesse dizendo: “Eu posso demonstrar meu poder melhor do que eliminando seu problema. É melhor para você, Paulo, e para a minha glória na sua vida, que eu demonstre minha força fazendo você se manter na ativa, embora o espinho continue aí”.

Desse modo, Paulo aceitou sua deficiência contínua como uma espécie de privilégio. “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (9). Os coríntios, à moda típica dos gregos, o desprezavam como um fraco. Não o consideravam um orador elegante ou personalidade que impressionasse. Paulo foi mais adiante, dizendo-lhes que ele era ainda mais fraco do que pensavam, pois vivia com seu espinho na carne, “porque quando sou fraco, então é que sou forte” (10). E queria que os coríntios também aprendessem a louvar a Deus pela sua fraqueza!

Um comentário sério duvida que o espinho possa ter sido doença, tendo em vista a “energia extraordinária” dele durante todo seu ministério. Mas que falta de sensibilidade! Energia extraordinária foi precisamente o que fora prometido a Paulo. Insensível foi também o crítico literário que escreveu sobre os livros de Joni Eareckson Tada como sendo testemunho à “coragem humana”. Coragem, sim – mas muito mais do que humana! A idade da bênção miraculosa não passou, graças a Deus, embora tal bênção nem sempre tome forma de cura. Mas também, nem foi diferente no tempo de Paulo.

Conclusão

Três conclusões procedem daquilo que vimos:

A primeira trata da cura milagrosa. Cristo e os apóstolos curavam milagrosamente quando eram impelidos a isso, quando, em outras palavras, eles sabiam que fazer isso era da vontade do Pai. Por isso suas tentativas de cura tiveram êxito. E ainda, a cura miraculosa para os cristãos não era universal naquele tempo, portanto não há justificativa para sustentar que seja assim agora.

A segunda conclusão trata da providência santificadora. Deus se utiliza de dor crônica e fraqueza, com outras aflições, como seu cinzel para esculpir nossa vida. A fraqueza sentida aprofunda nossa dependência de Cristo para recebermos forças a cada dia. Quanto mais fracos nos sentimos, tanto mais nos encostamos nele. E quanto mais nós nos encostamos nele, mais fortes nos tornamos espiritualmente, ainda enquanto nosso corpo se desgasta. Viver com seu “espinho” sem murmurações, com o coração amável e ajudar os outros, mesmo quando todos os dias você se sente fraco, é uma verdadeira santificação. A cura de sua pessoa pecadora prossegue assim, mesmo que a cura de seu corpo mortal não prossiga. E para Deus, a cura das pessoas é o que importa.

A terceira conclusão trata do comportamento da pessoa quando está doente. Certamente devemos procurar o médico, usar medicamentos, e agradecer a Deus por ambos. Mas é igualmente correto que devemos buscar o Senhor (Dr. Jesus, como alguns o chamam) e perguntar qual o desafio, a repreensão, ou o encojaramento que ele poderá ter para nós com respeito à nossa doença. Talvez recebamos cura na forma em que Paulo a pediu. Mas talvez recebamos na forma em que Paulo a recebeu. Precisamos estar abertos para ambos.

Agradeço a Deus que tenho conhecido mais de quarenta anos de saúde excelente, e sinto-me saudável ao escrever isto. Mas não será sempre assim. Eclesiastes 12, se nada pior, me aguarda. Que eu receba a graça de me lembrar, e aplicar a mim mesmo as coisas que aqui escrevi, quando meu próprio dia de fraqueza chegar, seja na forma de dor, paralisia, prostração ou o que for. E que a mesma bênção seja sua, também, em sua hora de necessidade.

 

James Innell Packer [ “Religião Vida Mansa”, Editora Cultura Cristã. Copyright 1999. Publicado originalmente por Tyndale House Publishers com o título Hot Tub Religion. Traduzido e publicado pela Editora Cultura Cristã com permissão de Tyndale House Publishers, Wheaton, Illinois 60187, USA. Artigo sumariado, reproduzido com autorização da Editora Cultura Cristã. ]