Cristo: A Rocha da Igreja

Quem Dizeis que EU SOU?” — Quem dizem os homens ser o Filho do homem?” Essa foi a pergunta que o Senhor Jesus fez aos Seus discípulos. Não havia nenhuma dúvida de que Ele era o Filho do homem. Tanto judeus como gentios O reconheciam e confessavam — Não como tal. A questão levantada agora não era se o Senhor Jesus era o Filho do homem, mas quem esse Filho do homem era. O Senhor não se importava em saber o que os homens estavam falando a Seu respeito — quer bem quer mal; Ele simplesmente estava querendo saber quem o povo estava dizendo que Ele era. O que, então, o povo estava dizendo acerca Dele? Aqueles que se Lhe opunham diziam que Ele estava possuído de demônios ou que era um glutão e beberrão de vinho.

Não vamos dar crédito nenhum a essas palavras blasfemas. Mas entre aqueles que tinham bons sentimentos para com Ele, diferentes pontos de vista eram sustentados. Uns diziam que Ele era João Batista; alguns, que Ele era Elias, e outros, Jeremias ou algum dos profetas.

Nicodemos disse que Ele era um mestre que veio da parte de Deus (Jo 3.2); a mulher samaritana junto ao poço disse que Ele era um profeta (4.19). Quem era esse Filho do homem? Diferentes pessoas sustentavam diferentes pontos de vista.

Mas a questão colocada pelo Senhor Jesus não parou nesse ponto. O que Ele realmente desejava saber era isto: quão diferente a visão dos discípulos era da visão das outras pessoas? Ele desejava especialmente saber que diferença a confissão de Pedro sobre Ele tinha das opiniões do povo. O que Ele estava tentando focalizar era o seguinte: “O povo diz que Eu sou tal tipo de pessoa, mas o que vocês dizem de Mim? Vocês, que são chamados Meus discípulos, quem dizem que Eu Sou?” Essa era a verdadeira questão que Ele tinha em mente.

Simão Pedro respondeu a pergunta de Jesus. Ele disse ao Senhor: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Sua resposta foi muito clara. Nela, Pedro confessou duas coisas acerca do Senhor: primeiro, ele confessou Jesus como Cristo, e, segundo, que Jesus é o Filho de Deus. Quanto à pessoa do Senhor Jesus, Ele é o Filho de Deus, mas quanto a Sua obra, Ele é o Cristo de Deus. Filho refere-se ao que Ele é; o Cristo refere-se ao que Ele faz. Filho indica Sua relação com o próprio Deus, enquanto Cristo fala do Seu relacionamento com o plano de Deus. Quando se fala da pessoa do Senhor, Ele é mencionado como sendo o Filho do Deus vivo, mas quando se fala da obra do Senhor, Ele é referido como Cristo — Ele é o Cristo do Deus vivo, o Ungido que é especialmente apontado para cumprir o plano de Deus. Essa, portanto, é a confissão de Pedro, a qual também é a nossa confissão sobre o Senhor Jesus.

Depois da confissão de Pedro, o Senhor Jesus falou a ele, dizendo: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas Meu Pai, que está nos céus”. Tal confissão não se originou na mente de Pedro nem foi aprendido por ele por meio de outra pessoa, mas foi revelado pelo Pai que está nos céus. O Senhor prosseguiu com mais declarações: “Pois Eu também te digo”. Ele primeiro mostrou a Pedro de onde viera aquela confissão e, então, levou Seus discípulos a verem a grandeza do efeito dessa confissão. O que o Senhor disse aos discípulos? “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Essa declaração, por parte de nosso Senhor, nos mostra o que é o fundamento da Igreja. Quão excessivamente importante é esse assunto para a fé cristã.

Ele é o núcleo de todas as questões. O que, então, é o fundamento da Igreja? Senhor nos sugere aqui que a Igreja é edificada sobre o que Ele chama de “esta pedra”. Portanto, o fundamento da Igreja é “esta pedra” da qual o Senhor fala.

O Que ESTA PEDRA Indica?

O que, exatamente, a expressão “esta pedra” indica? Pois, a menos que saibamos o que essa frase significa, não seremos capazes de compreender o que é o fundamento da Igreja nem de vermos claramente como a Igreja é edificada. A pedra nada mais é do que a confissão que Pedro faz concernente ao Senhor – e o que ele confessa é que o Senhor é o Cristo, o Filho do Deus vivo. E a Igreja é edificada exatamente sobre essa confissão: ela é edificada sobre a confissão do homem e do conhecimento do Senhor Jesus.

Essa confissão de Pedro não lhe foi mostrada por carne e sangue, antes ela foi da revelação de Deus. Portanto, aquilo que Pedro recebeu não é nos moldes do Cristianismo tradicional. Não foi porque as pessoas disseram a Pedro que Jesus era o Cristo que ele dizia que Jesus era o Cristo. Nem era porque as pessoas lhe diziam que Jesus era o Filho do Deus vivo que ele, então, dizia que Jesus era o Filho do Deus vivo. Nem tampouco Pedro gastou tempo em pesquisas e pensamentos até ele mesmo chegar à conclusão de que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo.

Esse conhecimento não procedeu dos próprios pensamentos de Pedro nem foi sugerido por outras pessoas, mas veio diretamente por meio da revelação do Pai que está nos céus. Essa confissão não foi baseada em opinião pessoal nem em ensinamentos humanos, mas na revelação de Deus sobre Seu Filho ao espírito de Pedro. Somente dessa maneira ele pôde saber que Jesus é o Cristo de Deus e o Filho de Deus.

Assim sendo, a Igreja é edificada sobre essa confissão, uma confissão baseada na revelação de Deus que mostra aos homens a pessoa e a obra de Cristo. Quando o Pai que está nos céus revela Seu Filho a Pedro, Ele leva Pedro a ver que Jesus é, de fato, o Filho de Deus e também o Cristo de Deus. Portanto, quando o Senhor subsequentemente declara aos Seus discípulos que “sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja”, essa pedra refere-se diretamente ao que Pedro acaba de confessar, mais precisamente a: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Isso é tanto revelação de Deus como a confissão do homem. Em resumo, “esta pedra” não é nada mais do que o próprio Cristo. A pedra é Cristo, o Filho do Deus vivo. Com referência à pessoa do Senhor, Ele é o Filho de Deus. Esse conhecimento é absolutamente necessário aos homens.

Conhecer o Senhor não está tão relacionado ao que sabemos de Seus feitos conforme narrado nos Evangelho, mas, sim, a conhecê-Lo como o Filho de Deus. Aquilo que os homens veem, ouvem e tocam não é suficiente, pois Cristo é muito mais do que isso – Ele é nada menos que o Filho do Deus vivo. Quão demasiado fácil é reconhecê-Lo como Filho do homem — tanto Seus amigos como os adversários confessavam-No e ainda O confessam como tal. Mas aqueles que receberam revelação de Deus, somente eles O conhecem como o Filho de Deus.

A ROCHA É o que Pedro Confessa

A Igreja é edificada sobre essa rocha, a qual é Cristo, o Filho de Deus. Essa rocha é a revelação que Deus deu aos homens, e essa rocha é a confissão do homem depois de ele ter recebido a revelação. Precisamos ver que a própria confissão é também muito importante.

Quando nosso Senhor Jesus esteve na terra, Ele repetidamente disse: “Eu sou” (Jo 8.24 ). Ao ouvirmos isso, nós cremos, e Ele, então, fica muito satisfeito em nos ouvir dizer: “Tu és”! Sabemos que há uma declaração que Deus ama ouvir-nos fazer, que é dizermos a Ele: “Tu és”, e dizermos ao Filho: “Tu és Senhor!”. Esta importante expressão, “Jesus é Senhor!”, pode ser a mais poderosa declaração. Algumas vezes, quando as coisas estão em confusão e Satanás zomba de você, dizendo que você agora está desamparado, tudo que você precisa fazer — mesmo que não possa orar num momento como esse — é simplesmente declarar. Proclame alto: “Jesus é Senhor!” e você verá instantaneamente que coisas confusas são nada e que a zombaria de Satanás também nada é. Quando está sendo severamente tentado, você deveria levantar-se e falar essa palavra. Quer seja em seu próprio quarto, quer seja numa reunião de oração, você deveria dizer: “Jesus é Senhor!” — por meio do que você está dizendo a Ele: “Tu és”. O Senhor ama ouvir tal declaração, e, como resultado, nós somos interiormente fortalecidos. O Senhor Jesus deleita-se em ouvir esse “Tu és!” — se não fosse assim, por que Ele perguntaria aos discípulos quem era? Que utilidade tem interrogar os discípulos se eles não sabem? Também porque perguntar se eles sabem? O Senhor Jesus fez essa pergunta porque Ele desejava muitíssimo ouvir Pedro falar sobre isso. Conservemos em mente que o fundamento da Igreja não é estabelecido somente sobre a revelação que Deus dá, mas é também estabelecido sobre a declaração de Pedro após ter ele recebido a revelação. Uma vez que Deus revelou Seu Filho – Sua Obra-prima – a nós, declaramos o que Deus revelou e confessamos a confissão que Ele nos deu: confessamos Jesus como o Filho de Deus e O confessamos como o Cristo. Isto é o que a Igreja é: a voz de Cristo que Ele deixou sobre a terra. Deus coloca a igreja na terra para declarar e confessar Cristo. Seria totalmente inaceitável Pedro meramente dizer em seu coração: “Eu creio que o Senhor tem poder e que Ele reina. Eu creio que o Senhor é glorioso.” Não seria suficiente Pedro apenas dizer: “Senhor, eu creio em Ti em meu coração.” O que o Senhor pergunta é: “E vós, quem dizeis vós que Eu so u?” “Vós” aqui aponta para os discípulos.

Portanto, esperava-se que eles falassem o que pensavam. O que tem de ser declarado? “Dizeis (…) que Eu sou” equivale a dizer, a confessar o próprio Senhor, a dizer quem o Senhor é. Vamos prestar atenção a essa palavra. Nós precisamos lembrar mais uma vez que a Igreja é edificada sobre nossa confissão acerca do Senhor: “Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja, e as portas do inferno (Hades) não prevalecerão contra ela”. Se não virmos o relacionamento entre a Igreja e as portas do Hades, podemos não perceber a importância de o Senhor ter usado a palavra “dizeis”; podemos pensar que crer no coração é suficiente ou que apenas orar seja adequado. Mas se virmos que a Igreja existe para deter as portas do Hades, então, apreciaremos quão cheia de vida e poder e autoridade é essa declaração de quem Jesus de Nazaré é. Muitos podem testificar das numerosas vezes em que eles encontraram dificuldades contra as quais fé e oração não pareciam produzir nenhum efeito vitorioso, até que, um dia, eles se levantaram e declararam: “Jesus, Tu és Senhor, Tu és Rei, Tu esmagaste o diabo debaixo dos Teus pés e Tu destruíste todas as obras do inimigo!” Assim que essa declaração foi feita, eles foram notavelmente fortalecidos. Nessa situação, a melhor oração não é a de petição; a melhor oração é a do tipo que declara: “Tu és!” “Tu és!” é a declaração de fé da Igreja. Nós podemos reiterar que a Igreja é edificada não somente sobre a revelação de Deus, mas também sobre a declaração dos homens sobre a revelação que receberam.

A declaração como um resultado de revelação é cheia de valor espiritual. Ela tem o poder espiritual para sacudir o Hades.

 

Watchman Nee [ “O Mensageiro das Boas Novas”, setembro de 2013, Ano XV nº 220 ]