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A fé cristã é definida por algumas doutrinas bem rígidas. Ela faz afirmações com respeito a eventos históricos, princípios abstratos e questões divinas que são tão específicas e inflexíveis, que qualquer sistema que as altere ou relaxe não pode ainda alegar ser a mesma religião, e portanto não pode compartilhar de seu fundamento inexpugnável. Todavia, ela é tão adequada a todos os tipos de pessoas, fala tão apropriadamente às suas necessidades e preocupações, e é tão rica em sua sabedoria e autoridade ao ponto de ter uma repreensão para corrigir qualquer transgressão cometida por uma pessoa pertencente a qualquer grupo, que aqueles que falham em captar a natureza transcendente do evangelho algumas vezes caem no erro de pensar que a fé cristã pertence exclusivamente a elas, que é designada ao seu tipo de pessoa, e ao seu tipo somente.

Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade (1 Timóteo 2.1-2).

O Senhor Jesus era um judeu em sua natureza humana, mas seu ministério e influência transcenderam isso, e ele circulou entre todos os tipos de pessoas. Seus discípulos incluíam governadores e plebeus, homens e mulheres, judeus e samaritanos, pescadores e coletores de impostos, intelectuais e prostitutas, ou aquelas que começaram como prostitutas. Ele era um homem assumindo uma personalidade onde quer que fosse. Ele nunca mudou seus princípios e práticas, e nunca comprometeu seus ensinos. Todavia, todos os tipos de pessoas foram engajados por ele de uma maneira pessoal e relevante. Ele recusou tornar-se todas as coisas para todos os homens, mas exigiu que todos os homens abandonassem todas as coisas para segui-lo. Ele era de fato exclusivo, insistindo que ele era o único caminho para Deus. Mas ele era inclusivo no sentido que todos os tipos de pessoas poderiam encontrar a Deus por meio dele.

A tentação que captura os ignorantes é que a fé cristã é tão adequada ao seu próprio grupo – visto que ela é adequada a todos os tipos de pessoas – que eles pensam que possuem um direito exclusivo ao evangelho, e que aqueles que não pertencem ao seu grupo deve ser excluídos, ou devem estar na segunda classe no reino de Deus, ou devem tornar-se como eles para que se tornem parte do povo escolhido. Sem dúvida, isso explica a mentalidade exclusivista de alguns gentios, e as facções contemporâneas de crentes.

Os judeus tinham uma mentalidade similar por uma razão diferente. Eles pensavam que a salvação pertencia exclusivamente a eles, pois Deus escolheu sua nação para plantar a semente do evangelho. Contudo, desde o início Deus pretendeu que eles fossem o mero ponto de partida, de forma que a salvação se espalharia a partir deles, não que as pessoas deveriam vir até eles e se unir a eles, para então obter a salvação. O resultado foi que, não somente os judeus retinham a salvação do mundo, mas eles mesmos recusavam entrar, e falharam em obtê-la para si mesmos.

Os cristãos são enlaçados por uma exclusividade ilegítima quando limitam o evangelho somente àqueles aspectos de suas vidas que são mais relevantes para eles. Por exemplo, o sistema cristão é um tesouro fascinante de riquezas intelectuais. A exatidão e precisão de sua história, os detalhes de seus argumentos, o escopo e coerência de suas doutrinas – em resumo, a perfeição intelectual que ele evidencia desde todo ângulo de estudo concebível – faz dele uma fonte eterna de sabedoria que satisfaz a elite intelectual. Mas que erro trágico seria para o intelectual pensar que a fé cristã não tem nada para o inculto.

Da mesma forma, as boas novas de Jesus Cristo resgata o oprimido do desespero, e injeta esperança nos humilhados. Mas seria um engano eles pensar que Cristo salva somente aqueles oprimidos pelos homens. Há aqueles que têm um ressentimento tão grande pelos ricos e poderosos ao ponto de pensar que essas pessoas não merecem o evangelho, como se elas merecessem por serem vítimas. Vítimas frequentemente tomam uma mentalidade auto-justificadora, como se fossem justas porque são vítimas de opressão. Isso é um delírio completo. O evangelho de Cristo salva o oprimido, mas ele não é um evangelho somente da vítima.

Os judeus não tinham direito a reivindicá-lo para si mesmos, e pregar um Cristianismo “Messiânico”. Essa é uma tentativa desesperada de afirmar um lugar para a sua cultura, ou exercer algum controle sobre doutrina e prática. Mas a promessa da salvação foi apenas enunciada primeiramente através dele. Nunca pretendeu-se permanecer com eles. Nem foi negada aos judeus. E assim como nenhum americano deveria pensar que a fé cristã é uma religião judaica, nenhum asiático deveria pensar que ela é uma religião americana. Ela não pertence exclusivamente a nenhuma raça, sexo ou classe.

Paulo começa sua instrução para adoração pública expandindo nosso pensamento, ou nossa aplicação da fé cristã. As orações devem ser feitas “por todos os homens”, mesmo reis. Eles não estão além do poder de Deus e a promessa do evangelho. Os governantes frequentemente se colocam como obstáculos ao evangelho, e é fácil alguns crentes pensar que eles deveriam orar contra eles, e não por eles. Mas Paulo nos chama a ampliar a nossa visão e o nosso pensamento sobre o que Deus pode fazer com os nossos governantes e com todos os homens.

Vincent Cheung